A derrota de Flávio Bolsonaro
(PL) para Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno das eleições
presidenciais, no domingo (25), foi seguida por uma sequência de
acontecimentos que colocou o senador no centro de uma nova crise
política e judicial.
Em menos de 48 horas, Flávio teve os passaportes
apreendidos por determinação do Supremo Tribunal Federal (STF), declarou
que não pretendia deixar o Brasil e acabou atravessando a fronteira com
a Argentina, de onde embarcou em um avião particular com a família.
Nesta
quarta-feira (28), a Direção Nacional de Migrações da Argentina
confirmou oficialmente que o senador, a mulher e as duas filhas entraram
no país na noite de terça-feira (27) e seguiram em um voo privado com
destino declarado a Guayaquil, no Equador.
A
informação esclareceu parte do trajeto de Flávio, cujo paradeiro havia
se tornado motivo de especulações desde a divulgação de notícias sobre
sua saída do Brasil.
O
governo dos Estados Unidos também confirmou que concederá vistos ao
senador e seus familiares. Entretanto, ainda não há confirmação oficial
de que a família tenha chegado ao território americano ou apresentado um
pedido de asilo político.
Como começou o caso de Flávio Bolsonaro?
Na
segunda-feira (26), um dia depois da eleição presidencial, o ministro
Alexandre de Moraes, do STF, determinou que Flávio Bolsonaro entregasse
seus passaportes à Polícia Federal e ficasse proibido de deixar o
território brasileiro.
A
decisão foi tomada no âmbito de uma investigação que envolve o senador e
o advogado Willer Tomaz, seu amigo, por suspeitas de lavagem de
dinheiro relacionadas a operações financeiras e empresas do setor de
apostas esportivas.
Os investigados negam irregularidades.
Além
da entrega dos documentos, a determinação judicial incluiu o
cancelamento do passaporte diplomático de Flávio e a proibição de
contato entre o senador e Willer Tomaz.
Flávio criticou a medida e questionou o momento em que a decisão foi tomada.
"Isso
é motivo para tirar meu passaporte? Isso é justiça? Essa decisão foi
tomada no domingo à noite, logo depois do resultado da eleição. Se eu
tivesse ganhado as eleições, iria acontecer a mesma coisa?", declarou.
Flávio Bolsonaro disse que não sairia do Brasil
Poucas
horas depois da decisão judicial, o senador publicou um vídeo nas redes
sociais afirmando que cumpriria a determinação de Moraes e permaneceria
no país.
"Vou
entregar os meus passaportes e vou me defender dessa aberração, porque é
uma tentativa de me intimidar, mas ninguém vai me calar", afirmou.
Na mesma manifestação, Flávio declarou: "Eu nunca pensei em sair do país".
O senador deveria entregar os documentos à Polícia Federal até as 11h de terça-feira (27), mas não cumpriu o prazo estabelecido.
Diante
do descumprimento, a Polícia Federal cancelou seus passaportes comum e
diplomático e comunicou a restrição aos sistemas de controle migratório.
Horas depois, começaram a circular informações de que Flávio havia deixado o Brasil pela fronteira com a Argentina.
Argentina inicialmente negou a entrada do senador
Na
terça-feira, veículos argentinos divulgaram que Flávio Bolsonaro teria
atravessado a fronteira e embarcado em uma aeronave particular com
destino aos Estados Unidos.
Inicialmente,
a Direção Nacional de Migrações da Argentina informou que não havia
registros da entrada do senador no território argentino.
As
autoridades também verificaram informações sobre um avião particular
estacionado no Aeroporto Internacional de Puerto Iguazú, próximo à
fronteira brasileira.
Naquele momento, não havia confirmação oficial de que Flávio estivesse entre os passageiros.
A situação mudou após a divulgação dos registros migratórios referentes à noite de terça-feira.
Qual foi a rota de Flávio Bolsonaro?
Nesta
quarta-feira (28), a Direção Nacional de Migrações da Argentina
confirmou que Flávio Bolsonaro atravessou a Ponte Internacional Tancredo
Neves, que liga Foz do Iguaçu, no Paraná, a Puerto Iguazú, na província
argentina de Misiones.
A entrada foi registrada às 22h50 de terça-feira (27), no horário local.
O
senador estava acompanhado da mulher, Fernanda Antunes Figueira
Bolsonaro, e das duas filhas, Carolina e Luiza Figueira Bolsonaro.
Segundo
o órgão argentino, os quatro apresentaram documentos de viagem válidos e
não tinham impedimentos registrados pelas autoridades locais para
entrar no país.
Cerca
de 40 minutos depois, às 23h30, a família embarcou em um voo privado
fretado pela empresa Baires Fly S.A., com destino declarado a Guayaquil,
no Equador.
A aeronave decolou do Aeroporto Internacional de Puerto Iguazú.
A confirmação argentina estabeleceu a primeira parte documentada da rota internacional do senador após sua saída do Brasil.
Por que Flávio Bolsonaro foi para o Equador?
O
Equador aparece como destino no plano de voo apresentado às autoridades
argentinas, mas pode não ter sido o ponto final da viagem.
O
jornal argentino Infobae informou que Guayaquil seria uma parada para
reabastecimento da aeronave antes da continuação do trajeto rumo aos
Estados Unidos.
Segundo
a publicação, o avião utilizado pela família é um Gulfstream G400, de
matrícula argentina LV-JQW, operado pela Baires Fly.
A aeronave estava em Puerto Iguazú desde a noite de segunda-feira (26), depois de chegar de Buenos Aires.
Apesar
dessas informações, não havia confirmação oficial sobre o desembarque
da família nos Estados Unidos até a divulgação dos registros argentinos.
Aliado de Flávio confirma saída e faz comparação com Venezuela
A saída de Flávio Bolsonaro também foi comentada por integrantes do Partido Liberal.
O
deputado federal Mauricio Marcon (PL-RS) confirmou publicamente que o
senador havia deixado o Brasil em direção aos Estados Unidos.
Marcon
comparou a situação à da líder oposicionista venezuelana María Corina
Machado, que deixou a Venezuela após o agravamento da crise política no
país.
A
comparação foi feita pelo parlamentar ao comentar a decisão judicial
contra Flávio e a possibilidade de o senador permanecer no exterior.
Outros aliados afirmaram não saber exatamente onde ele estava.
O senador Rogério Marinho (PL-RN), coordenador da campanha presidencial de Flávio, disse ter sido surpreendido pelas notícias.
"Estamos
surpresos porque ontem conversamos sobre a necessidade de Flávio, com
quase 60 milhões de votos que teve, assumisse esse papel de liderança da
oposição", declarou.
Marinho relatou ter recebido uma mensagem do senador dizendo que precisava de um tempo, sem fornecer detalhes sobre seus planos.
Estados Unidos anunciam vistos para Flávio Bolsonaro e família
Na
terça-feira (27), um alto funcionário do Departamento de Estado
americano confirmou que o governo dos Estados Unidos concederá vistos a
Flávio Bolsonaro e seus familiares.
A declaração foi prestada sob condição de anonimato e divulgada pela agência Associated Press.
"O
Departamento de Estado irá emitir vistos a Flávio Bolsonaro e à sua
família e permitir-lhes a entrada nos Estados Unidos", afirmou a
autoridade.
O
governo americano não informou publicamente qual categoria de visto
será concedida nem se houve algum pedido de proteção migratória.
A autorização para entrar nos Estados Unidos não equivale à concessão de asilo político.
Até
o momento, não há confirmação oficial de que Flávio Bolsonaro tenha
apresentado um pedido de asilo ou recebido essa condição migratória.
Lula critica saída de Flávio: "Quem não deve não teme"
O
presidente Lula comentou a saída do adversário durante um encontro com
apoiadores na terça-feira (27), quando comemorou seu aniversário de 81
anos.
O
petista classificou a atitude de Flávio como vergonhosa e comparou o
episódio à própria experiência durante as investigações da Operação Lava
Jato.
Lula
afirmou que recebeu convites para deixar o Brasil quando era
investigado, mas decidiu permanecer no país e se apresentar à Polícia
Federal.
"Eu
tive muitos convites para sair do Brasil, muitos convites para ir para
embaixada. E resolvi ficar aqui no Brasil e resolvi me entregar na
Polícia Federal, porque eu queria desmascarar meus acusadores e provar a
minha inocência", declarou.
O presidente também criticou a decisão de Flávio de deixar o território brasileiro após a determinação do STF.
"Ato vergonhoso. Se fugiu é porque teme, porque quem não deve não teme", afirmou.
O que acontece agora com Flávio Bolsonaro?
A investigação conduzida pelo STF permanece em andamento.
A
decisão de Alexandre de Moraes que determinou a entrega dos passaportes
e proibiu a saída de Flávio do Brasil não foi revogada.
A
confirmação de que o senador atravessou a fronteira argentina depois da
ordem judicial acrescenta um novo elemento ao processo, mas eventuais
consequências dependerão das decisões das autoridades brasileiras.
Também
permanece sem confirmação oficial o destino final da viagem, embora o
governo americano já tenha anunciado a intenção de permitir a entrada do
senador e de sua família nos Estados Unidos.