
Rosinei Coutinho / STF
O ministro Luiz Fux, do Supremo Tribunal Federal (STF), defendeu
nesta terça-feira 3 a proibição das plataformas de apostas esportivas
online no Brasil.
Durante audiência pública realizada na Corte, o
magistrado afirmou que os impactos das chamadas bets sobre a saúde da
população e a economia justificam a retirada da atividade do mercado
nacional.
A manifestação ocorreu em meio à discussão sobre a medida provisória
editada pelo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que
proibiu a exploração e a publicidade de apostas de quota fixa no País.
Relator
de ações que discutem a legalidade das apostas, Fux conduziu a
audiência com representantes de instituições e clubes de futebol
contrários à medida do governo.
Na abertura, rebateu críticas feitas nas
redes sociais de que estaria ouvindo apenas setores interessados na
manutenção das bets. O ministro lembrou que, em 2024, já havia realizado
encontros com entidades que defendiam a proibição da atividade.
Entre
as organizações ouvidas anteriormente estão a Associação Brasileira de
Psiquiatria (ABP), a Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras
Drogas (Abead), o Grupo Mulheres do Brasil e o Instituto Alana.
Essas
instituições apresentaram preocupações relacionadas ao endividamento das
famílias, à dependência em jogos e aos prejuízos provocados pelas
apostas.
“Nessas audiências, foram amplamente discutidas as consequências nocivas da atividade das bets”, afirmou Fux.
O
ministro destacou especialmente a ludopatia, transtorno caracterizado
pela dificuldade de controlar o comportamento de apostar, mesmo diante
de prejuízos financeiros e pessoais.
“Nós ouvimos toda a sociedade
e eu me convenci de que a ludopatia é um problema de saúde pública, é
um problema econômico e que deveria ser banida do cenário dos esportes
nacionais”, declarou.
Julgamento está suspenso
Fux também
mencionou um julgamento iniciado pelo STF em agosto deste ano sobre a
aplicação de uma legislação de 1941 que classifica a exploração de jogos
de azar como contravenção penal.
O processo discute se as restrições
previstas na norma permanecem compatíveis com a Constituição Federal de
1988, especialmente em relação às liberdades individuais.
Na
ocasião, Fux sinalizou posição favorável à manutenção da criminalização
da exploração de jogos de azar e dos estabelecimentos físicos dedicados à
atividade, como bingos e casas de caça-níqueis. A análise foi
interrompida por um pedido de vista do ministro Flávio Dino.
A
suspensão ocorreu após divergência sobre a abrangência do julgamento.
Enquanto Fux defendia que o processo fosse limitado à legislação sobre
contravenções penais, Dino considerou necessário incluir na discussão os
efeitos das plataformas digitais de apostas.
Durante a audiência
desta terça-feira, Fux afirmou que pretendia complementar seu voto para
defender expressamente a proibição das bets, mas ainda não teve
oportunidade de fazê-lo.
“Houve um pedido de vista que não voltou
até hoje, razão pela qual eu não tive oportunidade de reiterar e
acrescentar ao meu voto a minha percepção de que as bets devem ser
banidas”, declarou.
Os ministros haviam acertado que, depois da
devolução do processo por Dino, Fux avaliaria a situação das ações
apresentadas contra a Lei das Bets para permitir uma análise conjunta
dos casos a partir de novembro.
Clubes contestam proibição
A
discussão ganhou novo impulso em setembro, quando o governo federal
publicou uma medida provisória proibindo a exploração, a oferta, a
intermediação e a publicidade de apostas de quota fixa em território
nacional. A medida tem efeitos imediatos, mas depende de aprovação do
Congresso Nacional para se tornar definitiva.
A iniciativa provocou reação de clubes de futebol
que possuem contratos de patrocínio com empresas do setor.
Representantes de equipes da elite do futebol brasileiro participaram da
audiência no Supremo para apresentar os possíveis impactos financeiros
da proibição.
O presidente do Fluminense, Mattheus Reis e
Montenegro, afirmou que o encerramento definitivo das atividades das
bets poderá provocar perdas de receitas e demissões, especialmente em
clubes de menor porte, que dependem dos recursos de patrocinadores.
“O
drama de uma família endividada não pode ser maior do que o drama de
uma família que vai sofrer os efeitos do desemprego, que é o que vai
acontecer na cadeia do futebol, principalmente nas agremiações menores
com essa perda de receita”, declarou.
Montenegro estimou que o
Fluminense poderá perder R$ 200 milhões em receitas ao longo de um ano
caso a proibição seja mantida definitivamente.
A audiência integra a
discussão conduzida pelo STF sobre os efeitos econômicos e sociais das
apostas. Enquanto o governo e entidades da área de saúde defendem
medidas para combater a dependência e o endividamento associados à
atividade, clubes e representantes do setor argumentam que a proibição
poderá comprometer contratos, empregos e receitas.
A definição sobre a
continuidade das restrições dependerá dos desdobramentos no Congresso e
dos julgamentos ainda pendentes no Supremo.