Aos 101 anos, Francisca Antônia de Figueiredo mantém uma relação com o
voto que começou ainda na juventude e atravessou décadas de mudanças na
história do Brasil. Dona de casa e costureira, ela conta que participar
das eleições sempre foi motivo de alegria. Na votação mais recente, foi
às urnas para escolher seus representantes e reafirmar um hábito que,
segundo ela, nunca perdeu o sentido.“Eu acho importante votar, acho
que todo mundo tem que votar, todo mundo deve votar, pode ser a idade
que for, mas a pessoa tem que ir votar”, afirma Francisca em entrevista à Agência SAIBA MAIS.
A
mensagem direta resume a importância que ela atribui à participação
eleitoral. Para ela, votar não é apenas cumprir uma obrigação, mas
exercer o direito de escolher quem vai governar.
Francisca é uma das 276.102 pessoas com 70
anos ou mais aptas a votar em 2026 no Rio Grande do Norte. Nessa faixa
etária, segundo a legislação eleitoral brasileira, o voto não é
obrigatório, o que torna a decisão dela ainda mais importante.
Dia 4 de outubro, dia da eleição no 1°
turno, ela enfrentou dificuldades de acessibilidade em sua seção
eleitoral. E mesmo com problemas de mobilidade e sentada em uma cadeira
de rodas, não deixou de exercer seu direito. Além do RG, votou vestindo
uma camisa vermelha e branca, que remetia às campanhas de Natália
Bonavides (federal) e Daniel Valença (estadual). Ao final da votação,
posou para a foto fazendo um L com a mão direita, uma referência ao
símbolo de Lula, seu candidato à presidência da República desde a
primeira eleição do ex-metalúrgico de São Bernardo.
A lembrança das
primeiras eleições também vem acompanhada de uma memória familiar.
Francisca conta que começou a votar em 1943, aos 18 anos, quando já era
casada. Naquele tempo, a participação nas eleições era vivida com
entusiasmo pelas pessoas de sua comunidade, na Paraíba. Seu pai,
recorda, chegava a percorrer longas distâncias para votar.“Era
uma alegria muito grande no dia da eleição. O meu pai vinha de longe
para poder votar, as pessoas lá da Paraíba, todo mundo gostava de votar.
Era um dia de alegria”, conta.
Mais de oito décadas depois de atingir a
idade mínima para votar, Francisca continua associando as eleições à
possibilidade de participar das decisões políticas. O tempo passou, o
país mudou e sua própria trajetória tomou outros rumos, mas o interesse
pelo voto permaneceu.
Eleitora de Lula
Na memória da aposentada, a chegada da
energia elétrica e a construção de cisternas representam mudanças
importantes na vida das comunidades rurais. É a partir dessas
experiências que ela explica parte de suas escolhas políticas e o apoio
que declara manter ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Francisca
afirma que vota no Partido dos Trabalhadores e que sempre apoiou Lula.
Ao falar sobre o presidente, relaciona sua avaliação às mudanças que
considera significativas para a população do sertão, especialmente no
acesso à energia e à água.
“Eu não quero que ele perca, ele é o pai dos pobres, lá no sertão todo mundo é louco por ele, ele é muito bom”, diz.
A declaração expressa a maneira como
Francisca interpreta a atuação política a partir de sua experiência de
vida. Para ela, a escolha eleitoral está ligada à percepção dos efeitos
das políticas públicas sobre as condições de vida da população.
Ao
completar 101 anos, Francisca reúne lembranças de diferentes períodos
da história brasileira, desde a juventude na Paraíba até as mudanças que
acompanhou ao longo de décadas. A memória das eleições, porém,
permanece associada a uma experiência que compartilhou com outras
pessoas e com a própria família.
Seu relato sobre o pai que percorria
longas distâncias para votar ajuda a compreender como a participação
eleitoral também fazia parte da vida comunitária. Para Francisca, a
importância desse gesto não diminuiu com o passar dos anos.
“Eu acho importante votar e eu voto com todo prazer, para poder escolher o meu candidato”, afirma.
Aos
101 anos, ela continua defendendo que as pessoas participem das
eleições, independentemente da idade. É uma convicção que atravessou sua
vida e que permanece presente quando fala sobre o país, os
representantes políticos e as transformações que testemunhou.
“Se eu não gostasse, eu não tinha ido, mas eu gosto muito de votar”, conclui.
A história de Francisca não se resume à
participação política. Ao longo da vida, a costureira também ocupou um
lugar importante em sua trajetória. Embora se apresente como dona de
casa, ela conta que trabalhou confeccionando roupas e dedicou parte de
seu tempo a ajudar pessoas que precisavam de vestimentas.
Uma
das lembranças que guarda desse período começa em São Paulo, onde morou
e enfrentou, junto à família, o frio que tanto a preocupava. Francisca
temia que os filhos adoecessem ou morressem por causa das baixas
temperaturas. Foi naquele contexto que fez uma promessa: se os filhos
ficassem bem, ao retornar à Paraíba, confeccionaria roupas para pessoas
necessitadas.
“Eu fiz uma promessa: se nenhum de
meus filhos morresse, quando eu voltasse para Paraíba daria roupas e
faria roupas para o povo que precisasse”, relata.
Depois de voltar, ela passou anos
costurando e reunindo peças doadas por outras pessoas. Duas vezes por
ano, segundo conta, seguia para o sertão paraibano levando roupas para
distribuir entre famílias que precisavam de ajuda.
O
trabalho, mantido durante anos, transformou a costura em uma forma de
solidariedade. Além de produzir peças, Francisca mobilizava doações para
ampliar a quantidade de roupas que conseguia entregar. A atividade se
tornou parte de sua história, assim como o compromisso que demonstra ter
mantido com o voto.
A trajetória de Francisca também é marcada
pelas transformações que testemunhou no sertão da Paraíba. Ao recordar a
vida de antigamente, ela descreve uma realidade em que a iluminação
doméstica dependia de pequenas lamparinas abastecidas com querosene e o
acesso à água estava ligado aos riachos.
“Antigamente lá no sertão era só com
lamparina, lamparina pequenininha, com querosene, qualquer vento apagava
a lamparina e ficava tudo no escuro”, lembra.
Eleitorado idoso cresce no Brasil e no RN
O
Brasil contabilizou 37,45 milhões de eleitoras e eleitores com 60 anos
ou mais nas eleições de 2026, o equivalente a 23,6% do eleitorado apto a
votar. Em 2022, eram 32,89 milhões de pessoas nessa faixa etária, o que
representa um crescimento de aproximadamente 4,56 milhões em quatro
anos, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
No Rio Grande do Norte, 276.102 pessoas
com 70 anos ou mais estavam aptas a votar em 2026. Nessa faixa etária, o
voto é facultativo, conforme a legislação eleitoral brasileira. A
participação de Francisca Antônia de Figueiredo, aos 101 anos, ocorre
nesse contexto de envelhecimento do eleitorado, embora o número de
pessoas cadastradas não corresponda necessariamente à quantidade que
compareceu às urnas.