A ausência do senador Styvenson Valentim (Podemos) em mais uma sabatina
com candidatos ao Senado pelo Rio Grande do Norte abriu espaço para uma
cobrança que vai além da disputa eleitoral. Afinal, por que um
parlamentar que busca permanecer no cargo se recusa a enfrentar
perguntas públicas sobre o próprio mandato?A jornalista Micarla de Sousa
fez essa provocação ao comentar a ausência do senador na TV Ponta
Negra. Segundo ela, a recusa de Styvenson se repete de maneira
especialmente incômoda quando o exercício jornalístico é conduzido por
mulheres.
“Que pergunta é feita por uma mulher que vai fazer com que ele tenha algum temor?”,
questionou Micarla. Para a jornalista, a repetição das ausências pode
revelar uma seletividade na escolha dos espaços em que o senador aceita
ser questionado.
A crítica ganha peso no contexto da
campanha de 2026. Styvenson disputa a reeleição ao Senado depois de
exercer o mandato desde 2019. O próprio histórico recente mostra que a
participação em debates e sabatinas se tornou uma questão recorrente
entre os candidatos. Em 2 de setembro, por exemplo, ele não participou
de debate promovido pelo Grupo Dial Natal, enquanto cinco concorrentes
estiveram presentes. A ausência foi explorada pelos demais candidatos
durante o encontro.
A pergunta que ficou sem resposta
Micarla
não se limitou a questionar a ausência. Ela enumerou perguntas que,
segundo afirmou, faria ao senador caso ele tivesse comparecido.
Uma delas diz respeito à suplência de sua
chapa. Em 2019, no início do mandato, Styvenson apresentou a PEC
120/2019, que propunha ampliar a vedação ao nepotismo na administração
pública. No plenário do Senado, afirmou que queria “acabar” com a
prática e retirar “toda e qualquer oportunidade” para que parentes
fossem beneficiados na administração pública. A proposta foi formalmente
apresentada e continua em tramitação, sem ter sido transformada em
norma.
Sete anos depois, em 2026, o próprio
senador passou a admitir a possibilidade de ter a irmã, Anne Kelly
Valentim, como primeira suplente. Em entrevista à imprensa, Styvenson
reconheceu inclusive que mudou sua compreensão sobre o tema e afirmou
que atualmente não considera o nepotismo tão nocivo quanto antes.
A
mudança de posição é um fato documentado. E é justamente essa diferença
que torna a questão jornalisticamente relevante: não se trata de acusar
o senador de praticar um ato que a legislação caracteriza como
nepotismo, mas de confrontar a posição que ele defendia em 2019 com a
posição que passou a defender em 2026.
A pergunta que permanece é política e pública: o que mudou entre uma posição e outra?
O mandato também entra na cobrança
Micarla também questionou a atuação
legislativa do senador e afirmou que, em quase oito anos de mandato, o
parlamentar teria acumulado “zero” projetos de autoria integral
transformados em lei.
Essa afirmação
precisa de uma ressalva. Bases independentes de acompanhamento
legislativo, como o Meus Políticos, registram zero proposições de
autoria individual de Styvenson transformadas em lei. O Senado, por sua
vez, registra dezenas de proposições de autoria do parlamentar, além de
projetos em tramitação, relatorias e participação em matérias coletivas.
Portanto, a afirmação é mais precisa quando se fala em proposições de
autoria individual transformadas em lei, e não em “produção legislativa
zero”.
O próprio senador apresenta uma relação de
projetos que considera parte de sua atuação parlamentar. Entre eles
estão propostas sobre segurança pública, saúde, educação, proteção às
mulheres, transparência e outros temas.
Há, portanto, uma distinção importante
entre produzir projetos, relatar matérias, participar de votações e
conseguir transformar uma proposição de autoria própria em lei. São
medidas diferentes da atividade parlamentar e não devem ser tratadas
como equivalentes.
O projeto sobre vacinação
Entre as propostas citadas por Micarla está o PL 496/2021, de autoria de Styvenson, apresentado durante a pandemia de Covid-19.
A descrição oficial do Senado mostra que o
projeto estabelecia direitos da pessoa no momento da vacinação,
incluindo a possibilidade de presença de acompanhante, registro do
procedimento e do lote da vacina, além da previsão de crime para quem
obstruísse esses direitos. O texto foi aprovado pelo Senado e
encaminhado à Câmara, onde permanece sem conclusão.
A referência de Micarla ao projeto como
exemplo da atuação parlamentar do senador, portanto, está baseada em uma
proposta real e de sua autoria. O que pode ser objeto de debate é a
prioridade política escolhida pelo parlamentar, especialmente diante de
outros problemas enfrentados pelo sistema público de saúde naquele
período.
Esse é um debate diferente de afirmar que o senador não apresentou projetos ou não teve atuação legislativa.
“Eu fui a todas as sabatinas”
A ausência de Styvenson também provocou uma reação direta de Samanda de Lula, candidata do PT ao Senado.
A petista associou a ausência do senador à
necessidade de prestação de contas sobre o mandato e afirmou que também
teria perguntas a fazer caso ele tivesse participado da sabatina.
“Eu também teria muitas perguntas a fazer
ao senador Styvenson se ele não tivesse se recusado a ir ao debate e a
participar de várias sabatinas”, afirmou Samanda.
Na sequência, a candidata atacou a postura do senador diante da imprensa e dos espaços públicos de debate.
“Meu respeito às profissionais da
imprensa, em especial às mulheres jornalistas do meu estado, que fazem o
seu trabalho com muita seriedade e com muita coragem”, disse.
Samanda também aproveitou para marcar uma
diferença de comportamento na campanha: afirmou que participou de todas
as sabatinas para as quais foi chamada e que pretende continuar
comparecendo aos espaços de questionamento público.
“Eu
tenho o que falar. Eu tenho que prestar contas do meu mandato como
vereadora e faço isso com muita vontade e do que eu vou fazer eleita
senadora pelo meu estado, pelo Rio Grande do Norte”, afirmou.
Ao terminar, resumiu sua posição com uma frase que dialoga diretamente com a cobrança feita pela jornalista:
“Quem não deve, não teme.”
A ausência também é um fato político
Participar ou não de uma sabatina é uma
decisão de campanha. Nenhum candidato é obrigado a aceitar todo convite
feito por veículos de comunicação. Também é legítimo que uma candidatura
estabeleça critérios para participação em debates, entrevistas e outros
espaços públicos.
Mas, quando se trata
de alguém que já ocupa uma cadeira no Senado e pede ao eleitorado um
novo mandato, a recusa reiterada a espaços de perguntas produz uma
consequência inevitável: deixa sem resposta, diante do público, questões
sobre as quais o eleitor tem o direito de cobrar explicações.
No caso de Styvenson, algumas dessas
questões são particularmente objetivas. Por que a posição defendida por
ele em 2019 sobre nepotismo mudou? Por que a irmã passou a ser
considerada para a suplência? Quais projetos de sua autoria chegaram
efetivamente a virar lei? Quais ficaram pelo caminho e por quê? Qual foi
o impacto concreto de sua atuação legislativa no Rio Grande do Norte?
E, finalmente, por que participar de uma sabatina conduzida por uma
mulher se tornou uma escolha que o senador não fez?
São
perguntas que não se respondem por publicação em rede social, vídeo
gravado ou declaração sem contraponto. Exigem aquilo que uma sabatina
oferece por definição: pergunta, resposta, réplica e confronto público
de informações.
A ausência de Styvenson não encerra essas perguntas. Ao contrário, torna ainda mais necessária a cobrança por respostas.