Roberto Lucena - repórter
Dezesseis municípios do Rio
Grande do Norte, incluindo a capital, vão receber, a partir do próximo
mês, 43 médicos vinculados ao “Programa Mais Médicos”. Teoricamente, um
dos objetivos do Ministério da Saúde (MS) é ampliar o número de
profissionais nas regiões carentes do país. Na prática, os gestores da
saúde pública esperam que o efeito imediato do programa lançado
recentemente seja a melhoria em outra ação do Governo Federal lançada há
quase 20 anos, o Programa Saúde da Família (PSF).
De acordo com
secretários municipais de Saúde, o principal problema no PSF é o não
cumprimento da carga horária exigida aos médicos. O MS preconiza 40
horas semanais divididas em cinco dias. No entanto, não há dedicação
exclusiva ao programa. Os médicos não comparecem todos os dias às
unidades de saúde e as equipes acabam ficando incompletas. Um mesmo
médico, aliás, pode estar ligado a vários PSFs em diferentes municípios.
A contratação dos profissionais pelo “Mais Médicos” pode mudar essa
realidade.
É o que espera a secretária de Saúde do município de
Bom Jesus, a 46 quilômetros de Natal, Maria da Salete Cunha. “Os médicos
simplesmente não querem cumprir o horário. A gente acaba ficando sem
ter o que fazer. Além deles não cumprirem todas as horas, falta médico
que queira o PSF. Com o ‘Mais Médicos’, haverá uma mudança nesse cenário
porque o médico terá dedicação exclusiva”, teoriza.
Bom Jesus é
um dos 16 municípios potiguares que vai receber os profissionais.
Atualmente, o município conta com quatro equipes do PSF – três na zona
urbana e uma na zona rural. Na cidade, existe ainda um
hospital/maternidade sob administração municipal. Na última
quinta-feira, havia médicos apenas em duas das cinco unidades de saúde. O
hospital é bem equipado, mas a permanência de médicos no local gera
custos muito altos.
Para a diretora da unidade, o cooperativismo
dos médicos atrapalha a tentativa de levar atendimento à população. “É
muito oneroso para o Município. Os médicos cobram um preço e não há
negociação. É aquele valor e pronto. Os médicos fazem uma espécie de
cartel que dificulta a contratação”, diz. O plantão de 24 horas na
unidade não sai por menos de R$ 1 mil, em dias da semana, e R$ 1,2 mil
nos fins de semana. Por causa disso, o Hospital Maternidade Severina
Azevedo de Oliveira não conta com médicos nas terças e quintas.
De tão corriqueira, a prática dos médicos não cumprirem a carga horária
exigida pelo PSF já se incorporou à rotina das equipes e população dos
municípios. Desse modo, os calendários fixados nas unidades de saúde já
avisam os dias em que não há atendimento médico. Os demais profissionais
– enfermeiras, dentistas e agentes de saúde – recebem a população.
Antes
das 10h, na última quinta-feira, o médico responsável por uma das
equipes do PSF em Serra Caiada, a 66 quilômetros de Natal, já havia ido
embora do posto de saúde. Em outro posto, não havia médico. No primeiro,
uma das atendentes afirmou que o profissional teria realizado, no
intervalo de menos de duas horas, 35 atendimentos. No outro, o dia era
de atendimento exclusivo às mulheres. “Hoje é dia de realizar
preventivo. O atendimento médico ocorre amanhã”, avisa a enfermeira
Jaqueline Almeida.
Serra Caiada vai receber um médico dentro do
“Programa Mais Médicos”. Segundo a coordenadora do PSF no município,
Maélia do Nascimento, a dificuldade em coordenar o trabalho está
relacionada à contratação de médicos. “É muito complicado. Eles exigem
um valor e não aceitam todas as condições. Com o ‘Mais Médicos’ temos a
esperança desses problemas serem sanados”, coloca.
A médica
selecionada através do programa para trabalhar em Serra Caiada já atua
no município. Ela faz parte do PSF e é exemplo de que, como “Mais
Médicos”, haverá uma pequena mudança. O número de profissionais
continuará o mesmo, mas a dedicação passará a ser, teoricamente,
exclusiva. “É isso que esperamos. Que haja essa dedicação e não
precisamos ficar procurados médicos em todo lugar”, afirma Maélia.
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