Lava Jato identificou que o deputado e Léo Pinheiro tinham relação
próxima. Ministro do Turismo disse que doações que recebeu da OAS foram
legais.
Por Lucas Salomão e Filipe Matoso
Do G1, em Brasília
Na série de mensagens trocadas entre
o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), e o ex-presidente da
construtora OAS Léo Pinheiro, de 2012 a 2014, o deputado aparece, em
várias ocasiões, pedindo ao empreiteiro repasse de dinheiro para o atual
ministro do Turismo, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN).
As mensagens trocadas entre os dois foram apreendidas no celular do
ex-dirigente da empreiteira e fazem parte das investigações da Operação
Lava Jato, na qual Cunha foi denunciado pela Procuradoria Geral da República (PGR) por suposto envolvimento no esquema de corrupção que atuava na Petrobras.
A íntegra das mensagens, que consta em relatório da Polícia Federal
(PF), foi revelada na edição desta sexta-feira (8) do jornal “O Globo” e
confirmada pela TV Globo.
Em nota, Cunha disse que “jamais recebeu qualquer vantagem indevida de quem quer que seja” e desafiou a provarem o contrário
Também em nota, Henrique Eduardo Alves ressaltou que as doações que recebeu da OAS foram legais e estão disponíveis no site do TSE (leia mais ao final desta reportagem).
Em uma das conversas, registrada em 14 de agosto de 2012, Cunha usa
de ironia para se queixar ao empreiteiro que não recebeu um repasse de
dinheiro.
Na mensagem, ele menciona o nome “Henrique”, que os investigadores
acreditam se tratar do atual ministro do Turismo, que presidiu a Câmara
entre 2013 e 2014.
“Vc resolveu só metade Henrique ontem, esqueceu de mim? Rsrs”, escreveu Eduardo Cunha.
Já no dia 11 de setembro de 2012, Cunha volta a citar o nome
“Henrique” em outra mensagem. “Na programação sua Henrique e minha
estaria ontem completando 500 que não foi feito. Mudou algo?”
Logo depois, o empresário nega que a programação tenha sido alterada e Cunha rebate: “Não entrou e era programado para ontem.”
Em outra mensagem, datada de 15 de outubro de 2012, o presidente da
Câmara volta a cobrar Léo Pinheiro sobre um suposto repasse de doação a
“Henrique”, apontado pela PF como sendo o atual ministro do Turismo,
Henrique Eduardo Alves.
“Assunto Henrique não entrou no partido hj, e pelo feriado?”,
questiona Cunha. “Sim. Será feito amanhã. Avisa por favor a HA”,
respondeu um dia depois o ex-presidente da OAS.
Câmara
Durante a troca de mensagens entre Cunha e Léo Pinheiro, os dois celebram a eleição do atual presidente da Câmara para o cargo de líder do PMDB na Casa em 2013.
Em uma mensagem, enviada em 3 de fevereiro de 2013, Pinheiro parabeniza o peemedebista pela vitória na eleição.
“Parabéns. Vitória de um guerreiro competente. Abs”, disse o
empresário. Um dia depois, o próprio Léo Pinheiro avisa a
interlocutores, não identificados no relatório da Polícia Federal, que
Henrique Eduardo Alves havia vencido a eleição para a presidência da
Câmara. “Henrique eleito”, diz a mensagem.
Em outra mensagem, esta enviada 15 de outubro de 2014, Cunha cobra
uma “solução” de Léo Pinheiro para Henrique, no que parece ser o repasse
de doações para o atual ministro do Turismo.
Logo depois, ainda no dia 15, Léo envia mensagem para interlocutores,
preocupado com uma suposta mudança de postura de Henrique Alves.
Segundo a PF, a sigla EC era utilizada pelo empresário para se referir a
Eduardo Cunha
“Caixão e vela. EC me disse ontem que a coisa estava preta. O HA
estava ontem em bsb dizendo que ia Mineirar. PUTO com Lulinha pelo apoio
ao Robson”, disse Léo Pinheiro na ocasião.
Em outubro de 2014, Henrique Alves disputada a eleição para
governador do Rio Grande do Norte. Ele acabou derrotado pelo candidato
Robinson Faria, do PSD, que recebeu o apoio do ex-presidente Luiz Inácio
Lula da Silva..
Medidas provisórias
Em dezembro, o Blog do Matheus Leitão já havia divulgado parte das conversas mantidas por meio de mensagens entre Cunha e o ex-presidente da OAS.
Em dezembro, o Blog do Matheus Leitão já havia divulgado parte das conversas mantidas por meio de mensagens entre Cunha e o ex-presidente da OAS.
Na ocasião, o colunista do G1 mostrou que as
mensagens trocadas entre o presidente da Câmara dos Deputados e Léo
Pinheiro indicavam a negociação de medidas provisórias no Congresso
Nacional.
No relatório obtido pela TV Globo, a PF aponta que Eduardo Cunha e
Léo Pinheiro tiveram, entre 2012 e 2014, 94 encontros, ligações ou algum
outro tipo de contato. Ao longo dos dois anos, ocorreram, segundo os
investigadores, 35 pedidos, solicitações, cobranças ou agradecimentos
por parte do deputado e do empreiteiro.
No período em que ocorreram as trocas de mensagens, Eduardo Cunha
ainda não era presidente da Câmara. Ele assumiu o comando da casa
legislativa em fevereiro de 2015. Na ocasião, ele ocupava o posto de
líder do PMDB. À época, Léo Pinheiro ainda não havia sido preso pela
Lava Jato.
O ex-dirigente da OAS já foi condenado pela Justiça Federal,
em primeira instância, a 16 anos e quatro meses de prisão acusado de
cometer os crimes de corrupção ativa, lavagem de dinheiro e organização
criminosa. Atualmente, ele está recorrendo da condenação em liberdade.
Temer
Em um dos diálogos interceptados pela Polícia Federal, de 29 de agosto de 2014, Eduardo Cunha reclama com o empreiteiro sobre o fato de ele ter depositado “5 paus” diretamente para o Michel, referindo-se supostamente ao vice-presidente da República, Michel Temer.
Em um dos diálogos interceptados pela Polícia Federal, de 29 de agosto de 2014, Eduardo Cunha reclama com o empreiteiro sobre o fato de ele ter depositado “5 paus” diretamente para o Michel, referindo-se supostamente ao vice-presidente da República, Michel Temer.
Na conversa, o presidente da Câmara também menciona o nome do ex-ministro da Aviação CivilMoreira Franco –
um dos aliados mais próximos do vice-presidente – e dos ex-deputados do
PMDB Henrique Eduardo Alves (atual ministro do Turismo) e Geddel Vieira
Lima.
“E vc ter feito 5 paus para MICHEL direto de uma vez antes. Todos souberam e dá barulho sem resolver os amigos”, escreveu Cunha.
“Até porque Moreira tem mais rapidez depois de prejudicar vcs do que
os amigos que brigaram com ele por vc, entende a lógica da turma? Aí
inclui Henrique, Geddel, etc”, complementou.
Na resposta, Léo Pinheiro fez um alerta: “Cuidado com sua análise. Lhe mostro pessoalmente a qte de amigos!!!!!!”, enfatizou.
Por fim, o deputado do PMDB disse que outros colegas de partido
estavam “chateados” com o depósito que havia sido feito para Temer.
“Eles tão chateados porque Moreira conseguiu de vc para Michel 5 paus
e vc já depositou inteiro e eles que brigaram com Moreira vc adia e
isso”, queixou-se o presidente da Câmara.
‘Relação espúria’
No documento no qual pede ao Supremo Tribunal Federal (STF) o afastamento de Eduardo Cunha do cargo de deputado federal e, consequentemente, do comando da Câmara, o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, afirma que as mensagens trocadas entre o peemedebista e o ex-presidente da OAS demonstram uma “relação espúria”.
No documento no qual pede ao Supremo Tribunal Federal (STF) o afastamento de Eduardo Cunha do cargo de deputado federal e, consequentemente, do comando da Câmara, o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, afirma que as mensagens trocadas entre o peemedebista e o ex-presidente da OAS demonstram uma “relação espúria”.
“A partir de tais mensagens [entre Cunha e Léo Pinheiro, é possível
verificar nitidamente o modus operandi do grupo criminoso. Projetos de
lei de interesse das empreiteiras eram redigidos pelas próprias
[empresas], que os elaboravam, por óbvio, em atenção aos seus interesses
espúrios, muitas vezes após a ‘consultoria’ de Eduardo Cunha”, escreveu
o chefe do Ministério Público.
O que disseram os citados nas mensagens
Em nota divulgada pela assessoria de imprensa da Câmara, Eduardo Cunha disse lamentar o que ele chamou de “vazamento seletivo de dados protegidos por sigilos legal e fiscal que deveriam estar sob guarda de órgão do governo”.
Em nota divulgada pela assessoria de imprensa da Câmara, Eduardo Cunha disse lamentar o que ele chamou de “vazamento seletivo de dados protegidos por sigilos legal e fiscal que deveriam estar sob guarda de órgão do governo”.
À GloboNews, a assessoria da OAS afirmou que a construtora não teve
acesso às mensagens e informou que só se manifestará nos autos do
processo.
Em nota divulgada por sua assessoria, Henrique Eduardo Alves também
ressaltou que as doações que ele recebeu da OAS foram legais e estão
disponíveis no site do TSE.
“Todas as doações para a campanha de Henrique Eduardo Alves ao
Governo do Rio Grande do Norte foram legais e estão disponíveis no
Tribunal Superior Eleitoral, como determina a lei. Henrique Alves refuta
qualquer ilação baseada em premissas equivocadas ou interpretações
absurdas. Vale destacar que as empresas citadas fizeram doações para
campanhas de diversos partidos Brasil afora.”
A assessoria de Michel Temer informou
que todas as doações que ele recebeu foram declaradas ao Tribunal
Superior Eleitoral (TSE). Segundo o vice, não há irregularidade nas
doações.
Moreira Franco afirmou à GloboNews que “todas as contribuições à
campanha eleitoral do vice-presidente foram realizadas respeitando a
legislação eleitoral em rigor e encaminhadas por intermédio dos canais
competentes”.
Geddel Vieira Lima afirmou que sempre foi amigo de Léo Pinheiro
porque ele era empresário. O ex-deputado do PMDB disse ainda que “nunca
precisou de intermediário para ter dinheiro de campanha”. De acordo com
ele, Eduardo Cunha é que tem que responder pelas mensagens trocadas com o
ex-presidente da OAS na qual ele é citado.
Nota
Leia a íntegra da nota sobre Eduardo Cunha divulgada pela assessoria da Câmara:
Leia a íntegra da nota sobre Eduardo Cunha divulgada pela assessoria da Câmara:
NOTA À IMPRENSA
Em relação ao noticiário divulgado nesta sexta-feira, o presidente da Câmara esclarece o seguinte:
1) Lamenta o vazamento seletivo de dados protegidos por sigilos
legal e fiscal que deveriam estar sob guarda de órgão do governo;
2) Lamenta também a atitude seletiva do ministro da Justiça, que
nunca, em nenhum dos vazamentos ocorridos contra o presidente da Câmara –
e são quase que diários, solicitou qualquer inquérito para apuração. No
entanto, bastou citarem algum integrante do governo para ele, agindo
partidariamente, solicitar apuração imediata;
3) Reitera que jamais recebeu qualquer vantagem indevida de quem quer que seja e desafia a provarem;
4) Informa que, ao contrário do que foi criminosamente divulgado,
sua variação patrimonial entre os anos de 2011 e 2014 apresenta uma
perda R$ 185 mil, devidamente registrada nas declarações de renda;
5) Reitera que existe uma investigação seletiva do PGR, que visa
única e exclusivamente a escolher seus investigados. É de se estranhar
que nenhuma autoridade citada no tal relatório de ligações do sr. Leo
Pinheiro tenha merecido a atenção relativa ao caso, já que tal relatório
faz parte de duas ações cautelares movidas contra Eduardo Cunha –
incluindo um pedido de afastamento – e contra membros do governo não
existe nem pedido de abertura de inquérito, mesmo sendo sabido que o PGR
recebeu esses dados de membros do governo em 19 de agosto de 2015, e
não tomou qualquer atitude;
6) A divulgada quebra de sigilos do presidente da Câmara e seus
familiares ocorreu há mais de 3 meses, os documentos foram juntados em
23 de outubro e inclusive, como de praxe, em parte vazados para a
imprensa, não se tratando, portanto, de matéria nova que mereça
resposta;
7) É estranho que entre as justificativas de pedido de
afastamento feito pelo PGR conste a acusação de que um deputado teria
agido a mando do presidente por pedir a quebra dos sigilos de familiares
do réu Alberto Youssef, sendo inclusive classificado como “pau
mandado”. A PGR vê ameaça no pedido de quebra de sigilo de familiares de
um réu confesso e reincidente, cumprindo pena, mas, ao mesmo tempo,
pede a quebra dos sigilos de Eduardo Cunha e de sua família, mesmo ele
não sendo réu;
8) De qualquer forma, o presidente destaca que não vê qualquer
problema com a quebra de sigilos, e sempre estará à disposição da
Justiça para prestar quaisquer explicações.

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