
RN compromete ao menos 67% de sua receita com funcionalismo; Tesouro fala em 86%
O
relatório do Tesouro Nacional que apontou o Rio Grande do Norte como o
estado do País com maior risco de insolvência, no que diz respeito a
despesa com pessoal, evidenciou uma situação crítica nas contas públicas
potiguares. O documento revelou que o Estado comprometeria 86% de sua
receita corrente líquida com pagamento de funcionalismo – o maior índice
de todo o Brasil.
O governo estadual contesta os números, mas
confirma que a situação exige medidas drásticas para aumento de receitas
e contenção de despesas. Números obtidos pelo Agora RN mostram que,
para controlar a dívida, o Estado precisaria se desfazer de pelo menos
13 mil servidores ou, em contrapartida, elevar sua receita em cerca de
25%. Uma combinação das duas medidas levaria ao mesmo resultado.
A
Controladoria-Geral do Estado explica que os 86% de comprometimento de
receita apresentados pelo Tesouro Nacional divergem dos cálculos do
governo local por duas razões. Primeiro: o índice do Tesouro se refere à
soma dos gastos de todos os poderes do Rio Grande do Norte – Executivo,
Legislativo e Judiciário, além de Ministério Público, Tribunal de
Contas e demais órgãos com autonomia orçamentária –, enquanto no Estado
cada instituição divulga seus balanços separadamente. Em segundo lugar, o
método de contagem do Tesouro Nacional tem diferenças em relação ao que
é praticado no Rio Grande do Norte, o que gerou a discrepância.
Considerando
apenas o Poder Executivo, o último relatório de gestão fiscal,
referente ao 2° quadrimestre de 2018, concluiu que o gasto com pessoal
compromete 57,84% da receita corrente líquida. O índice está quase 10
pontos percentuais acima do limite estipulado pela Lei de
Responsabilidade Fiscal (LRF), que é 49%.
Enquanto a despesa com
pessoal extrapolar os limites legais, a LRF estabelece que o gestor fica
proibido de conceder vantagens, aumentos, reajustes ou adequação de
remuneração a qualquer categoria de servidor público; criar cargos ou
funções; e alterar estruturas de carreiras; entre outras vedações. Se
permanecer na situação por dois quadrimestres consecutivos, o ente não
pode receber transferências voluntárias ou fazer empréstimos. Essas
sanções já são aplicadas ao Rio Grande do Norte.
Enquanto no
Executivo o limite para despesa com funcionalismo é 49% da receita
corrente líquida, para os demais poderes e órgãos estaduais a legislação
estabelece os seguintes índices: 6% para o Judiciário, 2% para o
Ministério Público e 3% para Legislativo e Tribunal de Contas juntos.
Por
ser o ente que arrecada, é o Executivo que repassa as verbas para
manutenção dos demais poderes. Apesar disso, cada um tem autonomia para
executar seu orçamento e organizar as contas.
No 2° quadrimestre
de 2018, os demais órgãos e poderes tiveram despesa com pessoal dentro
dos limites legais estabelecidos pela Lei de Responsabilidade Fiscal. O
Ministério Público atingiu 1,73% (máximo é 2%); o Tribunal de Justiça,
4,89% (pode ser até 6%); a Assembleia Legislativa, 2,22% (teto é 2,26%);
e o Tribunal de Contas, 0,51% (limite legal é 0,62%).
Somadas as
despesas com pessoal de todos os poderes do Rio Grande do Norte,
chega-se ao índice de 67,19% de comprometimento de receita, 7,19 pontos
percentuais a mais do que preconiza a Lei de Responsabilidade Fiscal,
mas bem menos que os 86% calculados pela Secretaria do Tesouro Nacional.

De
acordo com a Controladoria-Geral do Estado, a diferença no cálculo da
despesa com pessoal (86% contra 67,19%) pode ser explicada por duas
diferenças na metodologia de cômputo dos gastos adotada pelos poderes no
Rio Grande do Norte. O procedimento foi autorizado pelo Tribunal de
Contas do Estado.
Uma das particularidades está no fato de que a
corte de contas estadual autorizou os poderes a excluírem da despesa com
servidores o valor do Imposto de Renda retido na fonte. “Cada tribunal
de contas estadual tem competência legal para regrar esse demonstrativo
fiscal. O Tribunal de Contas do RN decidiu que todos os poderes
(Executivo incluído) podem abater o Imposto de Renda retido na fonte”,
explica o controlador-geral, Alexandre Santos de Azevedo.
Ainda
segundo a Controladoria-Geral do Estado, com exceção do Executivo, os
demais poderes ainda têm autorização para abater do cálculo da despesa
com pessoal, além do Imposto de Renda retido na fonte, o gasto com
pessoal inativo e pensionistas. O Executivo também havia conseguido essa
autorização por meio de uma liminar, mas a Justiça depois reformou a
decisão.
Nas contas do controlador-geral, se esses dois fatores
entrassem para o cálculo geral – Imposto de Renda retido na fonte e
inativos e pensionistas –, o Estado provavelmente atingiria os 86% a que
chegou o Tesouro Nacional. Alexandre Santos de Azevedo frisa,
entretanto, que não há “maquiagem” nos balanços financeiros divulgados
no Rio Grande do Norte, haja vista que o tribunal de contas local
avaliza os relatórios.

Para
equilibrar a despesa com pessoal do Executivo – onde se concentra o
maior rombo nas contas, o controlador-geral aponta três alternativas:
corte em massa de gastos, aumento da receita ou as duas medidas
combinadas.
Atualmente, a folha de inativos do Rio Grande do Norte
supera a dos ativos. Na última paga completamente – setembro –,
aposentados e pensionistas consumiram cerca de R$ 260 milhões, enquanto
os funcionários em atividade corresponderam a aproximadamente R$ 239
milhões dos gastos. A situação, diga-se de passagem, alimenta outro
problema, o da Previdência estadual, já que a proporção recomendada é de
4 servidores ativos para cada beneficiário.
Considerando uma
receita estável, o Executivo do Rio Grande do Norte precisaria eliminar
por volta de R$ 75 milhões nessas despesas para se adequar aos limites
da Lei de Responsabilidade Fiscal. Com isso, seria necessário dispensar
no mínimo 13 mil servidores. Como o salário médio dos mais de 50 mil
servidores é R$ 4,5 mil, o corte necessário poderia ultrapassar as 16
mil demissões.
O atual governador, Robinson Faria (PSD), optou por
não demitir servidores, e a governadora eleita, Fátima Bezerra (PT),
disse que também não o fará. A medida é considerada impensável, já que
90% do funcionalismo do Estado está lotado nas áreas de educação, saúde e
segurança, essenciais do governo. Na Polícia Militar e Corpo de
Bombeiros, para completar o drama, há um déficit de cerca de 10 mil
agentes.
Além do impacto social e sobre os serviços públicos, as
demissões agravariam o déficit da Previdência. Com o aumento da
diferença entre a folha de ativos e inativos, o rombo nas contas
previdenciárias – hoje estimado em R$ 120 milhões por mês – seria
agravado. Para completar, a possibilidade de reforma da Previdência
nacional poderia acelerar ainda mais a migração dos ativos que
permanecessem para a inatividade. Atualmente, cerca de 30% dos
funcionários estão com o abono de permanência implantado, ou seja, estão
com tempo para se aposentar, mas seguem no serviço público.

Reunião da equipe de transição do atual para o próximo governo, de Fátima Bezerra (PT) – Foto: José Aldenir / Agora RN
Estabelecendo,
por outro lado, uma despesa fixa – ou seja, sem demissões –, a situação
seria igualmente impensável neste momento. Para que o Executivo
recuasse de 57,84% para 46,65% (limite prudencial) em gastos com
pessoal, a Controladoria-Geral do Estado calcula que seria necessário
aumentar a receita em nada menos que 25%. Assim como a demissão de
servidores, a medida é tida como impossível de ser executada por causa
da crise financeira que atravessa o País.
Nos últimos quatro anos,
a receita praticamente não avançou no Estado. A arrecadação de impostos
(uma das fontes) aumentou, mas outras receitas, como transferências,
caíram substancialmente. “A arrecadação própria – com ICMS, por exemplo
–, aumentou e isso compensou a queda no repasse federal”, explica
Alexandre Santos de Azevedo.
O controlador diz que as previsões
mais otimistas para o próximo ano revelam uma expansão de até 4% na
arrecadação. “Ou seja, não vai haver compensação por meio de
arrecadação. Até porque, para isso, precisaria haver aumento de
impostos, e isso só pode acontecer de forma moderada. Então, mesmo que
haja um aumento de 4% da receita, ainda seria preciso fazer uma redução
gigantesca da despesa, certamente demitir mais de 10 mil servidores”.
Para
Alexandre Santos de Azevedo, a origem do problema está no passado, com
concessões de vantagens exuberantes para funcionários públicos. “Isso é
uma catástrofe, e não é culpa do atual governo e nem será do próximo. É
um descalabro que vem acontecendo desde governos passados, que não
tinham responsabilidade e cuidado. Fizeram aumentos salariais altamente
generosos e incluíram benefícios excessivos em planos, com valores fora
da realidade. Não vejo saída se não houver uma reviravolta geral”,
acrescenta.
Na opinião do controlador-geral, é preciso o
envolvimento de múltiplos setores da sociedade para contornar a situação
de crise. “Será necessário um grande pacto pelo Rio Grande do Norte
entre todos os setores envolvidos: poderes, órgãos e sociedade. É
preciso formar uma frente voltada para o progresso”, comenta.
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