sexta-feira, 24 de abril de 2026

Processo de canonização do Padre João Maria entra em fase decisiva

 

 Padre João Maria | Foto: Arquivo TN

O processo de canonização do Padre João Maria avançou para a penúltima etapa para que o sacerdote possa ser oficialmente reconhecido como santo pela Igreja Católica. A nova fase começou após o envio, pela Arquidiocese de Natal, da documentação ao Dicastério das Causas dos Santos, no Vaticano. Agora, o material será analisado por uma comissão especializada da Santa Sé.

O encaminhamento dos documentos conclui uma etapa iniciada em 2002, com a instalação do tribunal arquidiocesano responsável por reunir depoimentos, documentos e estudos históricos sobre a trajetória do sacerdote. Ao longo do processo, comissões teológicas elaboraram relatórios sobre sua atuação religiosa e social. O reconhecimento das virtudes heróicas é uma condição para a concessão do título de venerável e, posteriormente, a comprovação de um milagre será necessária para a beatificação.

De acordo com o padre Bianor Francisco, pároco da Paróquia de Nossa Senhora de Lourdes, a chamada fase romana é decisiva para o andamento da canonização. “A comissão especializada fará a avaliação da documentação levada presencialmente ao Vaticano por Frei Jociel, postulador da causa. Caso sejam necessárias correções, os apontamentos nos documentos serão encaminhados de volta à Arquidiocese de Natal”, afirmou.

Concluída essa fase, o processo entra na última etapa, que dependerá da fé dos devotos e do trabalho da arquidiocese. Para a beatificação, a Igreja precisa apresentar um milagre atribuído à intercessão do sacerdote.

Segundo padre Bianor, serão consideradas as preces dos fiéis ao Padre João Maria e, caso haja respostas atribuídas a essas orações, os casos passarão por avaliação técnica. Em situações de cura, por exemplo, profissionais da saúde precisam atestar a recuperação sem explicação científica.

Para Zeneide Bezerra, integrante da comissão organizadora da causa, Padre João Maria segue como exemplo de humildade e solidariedade. “Era um homem que vivia para fazer o bem; um homem valoroso, cuidava dos vulneráveis, buscava, ele mesmo, por vezes, água numa cacimba, à noite, para matar a sede de quem tinha. Unia a fé, a confiança em Deus e desse sentimento a caridade como meta de sua vida”, declarou.

O Anjo de Natal

Nascido em 1848, na Fazenda Logradouro, então pertencente a Caicó e hoje localizada no município de Jardim de Piranhas, no Seridó potiguar, Padre João Maria se tornou um dos maiores símbolos de fé e caridade do Rio Grande do Norte.

Conhecido como o “Anjo de Natal”, o sacerdote ficou marcado pela assistência prestada à população durante epidemias de varíola, cólera e outras doenças infectocontagiosas que atingiram o Estado entre o fim do século XIX e o início do século XX.

Segundo relatos históricos, chegou a rasgar a própria batina para improvisar ataduras destinadas ao tratamento dos enfermos. Em um dos episódios registrados, foi encontrado caído ao chão, exausto, após preparar mingau e sopa para doentes acometidos por epidemias.

A reputação do sacerdote já era amplamente conhecida quando chegou a Natal, sobretudo pela atuação em Nísia Floresta, durante a grande seca de 1877, tragédia que provocou a morte de mais de 400 mil sertanejos. Com atuação abolicionista, foi eleito em 1883 presidente da Sociedade Libertadora Norte-Riograndense, entidade voltada à luta pela libertação dos escravizados no Estado.

Padre João Maria morreu em 16 de outubro de 1905, vítima de varíola, doença contra a qual atuou no cuidado aos enfermos. “Ele representa tudo aquilo que queremos ver hoje: preocupação com os mais humildes, ajudando-os em tudo que podia; curando-os de suas feridas, doenças, até sendo contagiado por uma delas, morrendo, inclusive”, afirmou Zeneide.

A morte causou forte comoção em Natal e, desde então, o sacerdote passou a ser reverenciado por muitos como o “Santo de Natal”. Em homenagem à sua trajetória, um busto foi instalado na praça que hoje leva seu nome, na Cidade Alta.

Ainda sem previsão para a conclusão da análise da documentação, Zeneide afirma que não há definição sobre uma possível ida da comissão ao Vaticano. “O futuro dirá quem poderá se fazer presente por ocasião da beatificação do Padre João Maria, o Anjo, como era e é conhecido”, disse.

A comissão responsável pela causa conta com apoio financeiro dos fiéis para custear as etapas burocráticas do processo. As doações podem ser feitas pela chave Pix canonizacaopejoaomaria@gmail.com

 

Tribuna do Norte

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