E há palavras que são escolhidas justamente porque permitem transmitir mais de uma mensagem ao mesmo tempo. Flávio Bolsonaro disse que Michelle não está sendo “fiel” ao líder do projeto político da família, ou seja, ao seu pai, Jair Bolsonaro.Ele poderia ter dito que Michelle não está sendo leal.
Poderia ter afirmado que ela não está sendo correta com Bolsonaro. Que estaria agindo de forma independente. Que não estaria seguindo uma orientação política. Ou até que estaria contrariando o líder do grupo.
Mas Flávio escolheu a palavra “fiel”. O que existe é uma insinuação construída pela escolha de uma palavra que, no universo da quinta série bolsonarista, possui um duplo sentido evidente.
E Flávio não é bobo nesse jogo.
Não se trata apenas de grosseria. É um método político.
Mas a frase também revela algo maior.
A disputa dentro do bolsonarismo está ficando cada vez mais explícita.
Michelle já não parece disposta a ocupar apenas o papel de esposa obediente, chamada para discursar quando interessa ao projeto familiar e mandada de volta para casa quando demonstra vontade própria.
Ela possui capital político, interlocução com setores importantes da direita e capacidade de mobilização. E isso, evidentemente, incomoda os filhos de Bolsonaro.
É por isso que a escolha da palavra “fiel” ganha tanta força.
Ela serve como advertência política e, ao mesmo tempo, como agressão pessoal.
O bolsonarismo age assim com jornalistas, adversárias e até mesmo com mulheres que fazem parte de seu próprio campo político.
Quando surge uma reportagem incômoda (como a foto de Flávio com o “Sicário” de Daniel Vorcaro”), em vez de responder aos fatos, seus aspones atacam quem publicou a informação. Questionam a jornalista, mobilizam influenciadores e acionam sua tropa de choque digital.
A misoginia não é um acidente dentro desse movimento. Ela é parte de sua linguagem e de sua forma de fazer política.
Agora, o mesmo método parece estar sendo utilizado dentro da própria família.
A grande questão é saber como Michelle reagirá.
Porque a fala de Flávio não foi apenas um comentário sobre lealdade política. Foi uma tentativa de marcar território na disputa pelo controle do espólio eleitoral de Jair Bolsonaro.
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