O avanço da desertificação no semiárido brasileiro ganhou um recorte
preocupante para o Rio Grande do Norte. Levantamento técnico produzido
pela Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste, vinculada ao
Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, revela que o estado
concentra 22 municípios entre os 100 com maior percentual de território
em estágio severo de desertificação em todo o Nordeste.
A
classificação considera áreas enquadradas nos níveis 4 e 5 do Índice de
Desertificação, patamares que indicam degradação intensa do solo, perda
significativa de produtividade e maior dificuldade de recuperação
ambiental. Entre os municípios potiguares listados, estão: Bom Jesus,
Passa e Fica, Vera Cruz, Brejinho, Senador Elói de Souza, Lagoa d’Anta,
Lagoa Nova, Nova Cruz, Pau dos Ferros, Macaíba e Serra do Mel, além de
outras cidades distribuídas pelo Agreste, Seridó e Oeste.
Confira o boletim completo aqui.
O caso mais crítico é o de Bom Jesus, onde mais de 84% do território
já apresenta degradação severa, um dos índices mais altos registrados em
toda a região Nordeste. O dado reforça um cenário que pesquisadores
acompanham há décadas e que agora se consolida em números oficiais.
Ao
contrário do que o imaginário popular sugere, desertificação não
significa o surgimento imediato de dunas ou a transformação da paisagem
em um deserto clássico. Trata-se de um processo gradual e silencioso de
perda da capacidade produtiva do solo em regiões áridas e semiáridas. À
medida que a terra perde matéria orgânica, fertilidade e capacidade de
reter água, a vegetação diminui, a produção agrícola cai e a economia
local enfraquece.
Os impactos ultrapassam a dimensão ambiental. A redução da
produtividade agrícola compromete a segurança alimentar, pressiona a
renda das famílias e pode provocar deslocamentos populacionais. Hoje,
cerca de 18% do território brasileiro é suscetível à desertificação e
aproximadamente 39 milhões de pessoas vivem nessas áreas.
No Rio
Grande do Norte, o avanço do fenômeno encontra condições naturais que
favorecem sua expansão. O semiárido potiguar é marcado por chuvas
irregulares, altas taxas de evaporação e solos rasos. Quando essas
características se somam ao desmatamento, à pecuária extensiva e ao
manejo inadequado da terra, a degradação se intensifica. O Seridó
potiguar, inclusive, integra um dos núcleos históricos de desertificação
identificados por estudos científicos desde a década de 1970 e segue
sob monitoramento.
O problema, no entanto, não se restringe ao estado. O boletim aponta
que, entre 2000 e 2020, as Áreas Suscetíveis à Desertificação no Brasil
cresceram cerca de 170 mil km², expansão equivalente à soma dos
territórios de Pernambuco, Paraíba e Alagoas. blt-sdn-desert Já as áreas
classificadas nos níveis mais críticos passaram de 74 mil km² para 107
mil km² em duas décadas, evidenciando que a degradação não está
estabilizada, mas em curso.
Agricultura família é a atividade mais afetada
Os mais afetados são agricultores familiares, assentados da reforma
agrária e comunidades tradicionais, que dependem diretamente da terra
para subsistência. A desertificação, portanto, é também um fenômeno
social e econômico, capaz de aprofundar desigualdades e comprometer
perspectivas de desenvolvimento sustentável.
O Brasil é signatário da Convenção das Nações Unidas de Combate à
Desertificação e prepara um plano nacional de enfrentamento até 2043,
com foco em manejo sustentável do solo, recuperação da Caatinga,
ampliação da infraestrutura hídrica e fortalecimento da agricultura
adaptada ao semiárido.
No caso potiguar, a presença de 22 municípios
entre os mais atingidos do Nordeste acende um sinal de alerta. Mais do
que uma questão climática, a desertificação se apresenta como desafio
estrutural que exige políticas públicas permanentes, planejamento
territorial e ações integradas para impedir que a degradação avance
sobre novas áreas do estado.