Foto 1: Reprodução / Foto 2: Blog Professor Canindé
Uma cidade potiguar que desapareceu sob as águas de uma barragem ajudou a dar origem a uma história que agora pode chegar ao Oscar. A memória de São Rafael, no Oeste do Rio Grande do Norte, está entre as referências que deram forma ao roteiro de Feito Pipa, escolhido para representar o Brasil na disputa por uma vaga na categoria de Melhor Filme Internacional do Oscar 2027.
Por trás da história está o roteirista cearense André Araújo, de 35 anos, que teve contato com o episódio ainda durante a graduação em Comunicação Social na Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN), em Mossoró. Foi naquele período que ele conheceu relatos sobre a antiga cidade e os impactos provocados pela construção da Barragem Armando Ribeiro Gonçalves.
A experiência despertou no roteirista uma inquietação que permaneceu por anos. Em 2019, André retomou a lembrança da antiga São Rafael e começou a desenvolver o projeto que mais tarde se transformaria em Feito Pipa. O longa foi escolhido pela Academia Brasileira de Cinema na quarta-feira (16) para representar o país na seleção do Oscar.Da memória de São Rafael para a tela
Durante a universidade, André e a colega Ceiça Guilherme produziram um trabalho de caráter documental sobre São Rafael. A pesquisa buscava compreender não apenas as mudanças provocadas pela inundação, mas também os efeitos subjetivos e simbólicos da perda da cidade para quem precisou deixá-la.
Os relatos colhidos durante esse período permaneceram na memória do roteirista. Entre as imagens que mais o marcaram estava a antiga igreja de São Rafael, posteriormente encoberta pelas águas.A lembrança acabou encontrando espaço na ficção. Embora Feito Pipa seja ambientado no interior do Ceará, a narrativa trabalha justamente com temas como memória, perda e as marcas deixadas por transformações que atingem uma comunidade.No filme, Gugu, um garoto de 12 anos criado pela avó, Dilma, vive uma relação de proximidade com a professora aposentada. A situação muda quando ela passa a enfrentar o avanço do Alzheimer e o menino corre o risco de voltar a morar com o pai, Batista, com quem mantém uma relação distante.
A própria transformação da paisagem se conecta à história de Dilma. Com a redução das águas de uma barragem, a antiga cidade volta a aparecer, despertando lembranças que se misturam ao processo de perda de memória enfrentado pela personagem.
O caminho de André até o cinema
Natural de Russas, no Ceará, André escolheu Mossoró para estudar pela proximidade entre as duas cidades. Durante a formação em Comunicação Social, com habilitação em Rádio, TV e Internet, concluída em 2010, ele começou a experimentar a produção audiovisual.
Além de ter vivido em Mossoró, o roteirista também morou durante alguns anos em Umarizal, no Oeste potiguar. A relação com o estado permaneceu ao longo dos anos, inclusive por meio da família, já que a avó que o criou vive em Mossoró.
A trajetória no cinema também inclui a parceria com o diretor Allan Deberton. Os dois trabalharam juntos em outros projetos, entre eles Pacarrete, filme premiado no Festival de Gramado.
Feito Pipa chega ao Oscar após conquistar reconhecimento internacional. O longa recebeu dois prêmios no Festival Internacional de Cinema de Berlim, incluindo o Urso de Cristal e o Grande Prêmio do Júri Internacional na mostra Generation Kplus.
Agora, a produção será submetida à Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, que definirá os cinco filmes indicados ao Oscar de Melhor Filme Internacional. A cerimônia do Oscar 2027 está marcada para 14 de março.
Antes disso, o público brasileiro poderá conferir o filme nos cinemas. Feito Pipa, dirigido por Allan Deberton e estrelado por Lázaro Ramos, Yuri Gomes e Teca Pereira, tem estreia prevista para 5 de novembro.
A escolha para representar o Brasil não garante, por si só, uma indicação ao Oscar. O longa ainda precisa passar pela próxima etapa de avaliação da Academia.
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