sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Ausência de Styvenson em sabatina expõe contradições do senador

 A ausência do senador Styvenson Valentim (Podemos) em mais uma sabatina com candidatos ao Senado pelo Rio Grande do Norte abriu espaço para uma cobrança que vai além da disputa eleitoral. Afinal, por que um parlamentar que busca permanecer no cargo se recusa a enfrentar perguntas públicas sobre o próprio mandato?A jornalista Micarla de Sousa fez essa provocação ao comentar a ausência do senador na TV Ponta Negra. Segundo ela, a recusa de Styvenson se repete de maneira especialmente incômoda quando o exercício jornalístico é conduzido por mulheres.

Que pergunta é feita por uma mulher que vai fazer com que ele tenha algum temor?”, questionou Micarla. Para a jornalista, a repetição das ausências pode revelar uma seletividade na escolha dos espaços em que o senador aceita ser questionado.

A crítica ganha peso no contexto da campanha de 2026. Styvenson disputa a reeleição ao Senado depois de exercer o mandato desde 2019. O próprio histórico recente mostra que a participação em debates e sabatinas se tornou uma questão recorrente entre os candidatos. Em 2 de setembro, por exemplo, ele não participou de debate promovido pelo Grupo Dial Natal, enquanto cinco concorrentes estiveram presentes. A ausência foi explorada pelos demais candidatos durante o encontro.

A pergunta que ficou sem resposta

Micarla não se limitou a questionar a ausência. Ela enumerou perguntas que, segundo afirmou, faria ao senador caso ele tivesse comparecido.

Uma delas diz respeito à suplência de sua chapa. Em 2019, no início do mandato, Styvenson apresentou a PEC 120/2019, que propunha ampliar a vedação ao nepotismo na administração pública. No plenário do Senado, afirmou que queria “acabar” com a prática e retirar “toda e qualquer oportunidade” para que parentes fossem beneficiados na administração pública. A proposta foi formalmente apresentada e continua em tramitação, sem ter sido transformada em norma.

Sete anos depois, em 2026, o próprio senador passou a admitir a possibilidade de ter a irmã, Anne Kelly Valentim, como primeira suplente. Em entrevista à imprensa, Styvenson reconheceu inclusive que mudou sua compreensão sobre o tema e afirmou que atualmente não considera o nepotismo tão nocivo quanto antes.

A mudança de posição é um fato documentado. E é justamente essa diferença que torna a questão jornalisticamente relevante: não se trata de acusar o senador de praticar um ato que a legislação caracteriza como nepotismo, mas de confrontar a posição que ele defendia em 2019 com a posição que passou a defender em 2026.

A pergunta que permanece é política e pública: o que mudou entre uma posição e outra?

O mandato também entra na cobrança

Micarla também questionou a atuação legislativa do senador e afirmou que, em quase oito anos de mandato, o parlamentar teria acumulado “zero” projetos de autoria integral transformados em lei.

Essa afirmação precisa de uma ressalva. Bases independentes de acompanhamento legislativo, como o Meus Políticos, registram zero proposições de autoria individual de Styvenson transformadas em lei. O Senado, por sua vez, registra dezenas de proposições de autoria do parlamentar, além de projetos em tramitação, relatorias e participação em matérias coletivas. Portanto, a afirmação é mais precisa quando se fala em proposições de autoria individual transformadas em lei, e não em “produção legislativa zero”.

O próprio senador apresenta uma relação de projetos que considera parte de sua atuação parlamentar. Entre eles estão propostas sobre segurança pública, saúde, educação, proteção às mulheres, transparência e outros temas.

Há, portanto, uma distinção importante entre produzir projetos, relatar matérias, participar de votações e conseguir transformar uma proposição de autoria própria em lei. São medidas diferentes da atividade parlamentar e não devem ser tratadas como equivalentes.

O projeto sobre vacinação

Entre as propostas citadas por Micarla está o PL 496/2021, de autoria de Styvenson, apresentado durante a pandemia de Covid-19.

A descrição oficial do Senado mostra que o projeto estabelecia direitos da pessoa no momento da vacinação, incluindo a possibilidade de presença de acompanhante, registro do procedimento e do lote da vacina, além da previsão de crime para quem obstruísse esses direitos. O texto foi aprovado pelo Senado e encaminhado à Câmara, onde permanece sem conclusão.

A referência de Micarla ao projeto como exemplo da atuação parlamentar do senador, portanto, está baseada em uma proposta real e de sua autoria. O que pode ser objeto de debate é a prioridade política escolhida pelo parlamentar, especialmente diante de outros problemas enfrentados pelo sistema público de saúde naquele período.

Esse é um debate diferente de afirmar que o senador não apresentou projetos ou não teve atuação legislativa.

“Eu fui a todas as sabatinas”

A ausência de Styvenson também provocou uma reação direta de Samanda de Lula, candidata do PT ao Senado.

A petista associou a ausência do senador à necessidade de prestação de contas sobre o mandato e afirmou que também teria perguntas a fazer caso ele tivesse participado da sabatina.

“Eu também teria muitas perguntas a fazer ao senador Styvenson se ele não tivesse se recusado a ir ao debate e a participar de várias sabatinas”, afirmou Samanda.

Na sequência, a candidata atacou a postura do senador diante da imprensa e dos espaços públicos de debate.

“Meu respeito às profissionais da imprensa, em especial às mulheres jornalistas do meu estado, que fazem o seu trabalho com muita seriedade e com muita coragem”, disse.

Samanda também aproveitou para marcar uma diferença de comportamento na campanha: afirmou que participou de todas as sabatinas para as quais foi chamada e que pretende continuar comparecendo aos espaços de questionamento público.

“Eu tenho o que falar. Eu tenho que prestar contas do meu mandato como vereadora e faço isso com muita vontade e do que eu vou fazer eleita senadora pelo meu estado, pelo Rio Grande do Norte”, afirmou.

Ao terminar, resumiu sua posição com uma frase que dialoga diretamente com a cobrança feita pela jornalista:

“Quem não deve, não teme.”

A ausência também é um fato político

Participar ou não de uma sabatina é uma decisão de campanha. Nenhum candidato é obrigado a aceitar todo convite feito por veículos de comunicação. Também é legítimo que uma candidatura estabeleça critérios para participação em debates, entrevistas e outros espaços públicos.

Mas, quando se trata de alguém que já ocupa uma cadeira no Senado e pede ao eleitorado um novo mandato, a recusa reiterada a espaços de perguntas produz uma consequência inevitável: deixa sem resposta, diante do público, questões sobre as quais o eleitor tem o direito de cobrar explicações.

No caso de Styvenson, algumas dessas questões são particularmente objetivas. Por que a posição defendida por ele em 2019 sobre nepotismo mudou? Por que a irmã passou a ser considerada para a suplência? Quais projetos de sua autoria chegaram efetivamente a virar lei? Quais ficaram pelo caminho e por quê? Qual foi o impacto concreto de sua atuação legislativa no Rio Grande do Norte? E, finalmente, por que participar de uma sabatina conduzida por uma mulher se tornou uma escolha que o senador não fez?

São perguntas que não se respondem por publicação em rede social, vídeo gravado ou declaração sem contraponto. Exigem aquilo que uma sabatina oferece por definição: pergunta, resposta, réplica e confronto público de informações.

A ausência de Styvenson não encerra essas perguntas. Ao contrário, torna ainda mais necessária a cobrança por respostas.

 

 

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