O Rio Grande do Norte registrou 1.007 mortes violentas intencionais (MVI) em 2025, número que cresceu 19,6% em relação a 2024, quando foram registradas 840 mortes violentas intencionais. O aumento percentual do estado foi o maior para o período e ocorreu na contramão do país: o Brasil reduziu o índice em 8,2% e alcançou o menor patamar de violência letal desde o início da série histórica, em 2012. Os dados são da 20ª edição do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado nesta quinta-feira (23).
O estado está entre as sete unidades da federação que tiveram crescimento nesse indicador no ano passado. Segundo o levantamento, o RN está entre os dez estados brasileiros com as maiores taxas de MVI – que incluem homicídio doloso, latrocínio, lesão corporal seguida de morte e morte decorrente de intervenção policial (MDIP), além de mortes de policiais.
Além do crescimento de MVI no sentido mais amplo, o RN registrou o aumento de mortes de crianças e adolescentes (+153,9%, segundo maior aumento do país), MDIP (50,2%) e homicídios de mulheres (61,8%, segundo maior aumento). O número de feminicídios de 2024 se repetiu em 2025, com 19 registros. Dois policiais foram vítimas de crimes violentos no RN em 2025.
Francisco Augusto Cruz, especialista em segurança pública e sistema prisional, diz que é importante evitar análises baseadas apenas na comparação de um ano. “Os indicadores de violência apresentam oscilações que precisam ser compreendidas dentro de uma série histórica mais ampla”, afirma.
Segundo ele, o RN vinha de um período de redução dos homicídios. O crescimento de 19,6%, diz o pesquisador, “demonstra que a violência é um fenômeno dinâmico e exige políticas permanentes, e não apenas respostas pontuais”.
Para ele, seria precipitado dizer que “o recrudescimento de conflitos ligados ao crime organizado e ao tráfico de drogas” seria o único motivo do crescimento de mortes violentas no estado. “A boa análise em segurança pública exige olhar para onde essas mortes aconteceram, quem foram as vítimas e quais motivações predominam”, explica.
Em outros indicadores de segurança, o estado apresentou resultados positivos. A quantidade de roubos e furtos de celular no RN recuou 22,1% em 2025, a maior redução do Brasil, e o número de roubos e furtos de veículo caiu 27,3% no RN.
Por outro lado, a letalidade policial (MDIP) cresceu 5,4% em nível nacional; no RN, cresceu 50,2%. Os homicídios de mulheres caíram 5,5% no Brasil, mas o RN teve um salto de 61,8% nessas mortes.
Ainda segundo o anuário, o financiamento de políticas de segurança pública no Brasil atingiu R$ 163,1 bilhões em 2025, crescimento de 2,1% frente a 2024. Em 2025, o país registrou a menor taxa de MVI desde 2012: 19,1 casos por 100 mil habitantes.
Salto de 153%
As MVI de crianças e adolescentes caíram 10,8% no país; o RN registrou um aumento de 153,9%, passando de 24 para 60 vítimas. Segundo o levantamento, esse fenômeno é atribuído à disputa territorial entre as facções Comando Vermelho, Sindicato do Crime (SDC) e PCC, especialmente no Oeste potiguar.
“Operações policiais realizadas ao longo de 2025 intensificaram confrontos e o processo de reorganização das facções criminosas locais, ajudando a explicar o crescimento exponencial de um ano para outro”, diz o anuário.
Para Francisco Augusto Cruz, o dado preocupa por atingir um grupo especialmente vulnerável. “Muitas vezes essas mortes estão relacionadas à expansão da violência armada nos territórios ou ao envolvimento indireto com conflitos entre organizações criminosas”, explica.
Em relação às mortes de mulheres, diz ele, é preciso fortalecer toda a rede de proteção. “Esses números reforçam que segurança pública não é apenas policiamento; envolve assistência social, educação, saúde, justiça e proteção às famílias”.
Estado cita organizações criminosas
Em
nota, a Secretaria da Segurança Pública e da Defesa Social do RN
(Sesed-RN) afirma que “os indicadores criminais são dinâmicos e refletem
diferentes fatores, entre eles a atuação de organizações criminosas e
os conflitos entre facções”. O fenômeno ocorre em diversos estados.
A
pasta ressalta que, entre 2018 e 2025, o RN reduziu pela metade o
número de homicídios. “As mortes violentas intencionais caíram de 1.788
para 873 casos por ano, uma redução de 51%, consolidando o RN entre os
estados que mais diminuíram a violência letal no Brasil”, diz a
Sesed-RN.
Na série histórica, o RN está entre os estados que mais
reduziram os índices de violência nos últimos anos, “resultado de um
conjunto de políticas públicas, investimentos, integração entre as
forças de segurança e fortalecimento das ações de inteligência,
investigação e repressão qualificada ao crime”, diz a pasta.
A
reportagem buscou a secretaria para comentar outros temas, como o
aumento de mortes de mulheres e crianças e adolescentes, e a redução de
furtos e roubos de celulares e veículos, mas não teve resposta até o
fechamento desta edição.
Contornos da violência
Questionado sobre o que pode ter contribuído para que as mortes violentas tenham voltado a crescer no RN, Francisco Augusto Cruz afirma que a violência resulta da combinação de fatores sociais, econômicos e criminais. Segundo ele, há hoje uma reorganização das facções criminosas. Além disso, “eventos específicos podem impactar significativamente estados que possuem populações menores, produzindo variações percentuais mais elevadas”.Na visão dele, as políticas públicas de segurança produziram avanços importantes em determinados indicadores, especialmente na redução de crimes patrimoniais, no fortalecimento das investigações e na integração entre as forças de segurança. “O crescimento dos crimes letais demonstra que ainda existem desafios importantes. A segurança pública é uma política de continuidade”, pondera.
Ao mesmo tempo em que crimes violentos cresceram no RN em 2025, houve queda de crimes contra o patrimônio. Questionado sobre a relação desse fenômeno com a dinâmica do crime organizado e das ações da segurança pública, o especialista diz que, em muitos estados, “as organizações criminosas passaram a concentrar suas atividades em mercados ilícitos mais lucrativos, reduzindo determinados crimes patrimoniais enquanto aumentam os conflitos armados relacionados ao controle territorial e ao tráfico de drogas”.
“Ao mesmo tempo, não se pode ignorar que a redução dos roubos também reflete melhorias nas estratégias policiais, no uso de inteligência, monitoramento por câmeras, recuperação de celulares e maior integração das forças de segurança. Ou seja, os dois movimentos podem ocorrer simultaneamente: avanços em alguns indicadores e desafios persistentes em outros”, conclui Francisco Augusto Cruz.
NÚMEROS
Mortes Violentas Intencionais (MVI) no RN
2012: 388
2013: 1.624
2014: 1.762
2015: 1.659
2016: 1.980
2017: 2.355
2018: 1.926
2019: 1.264
2020: 1.357
2021: 1.308
2022: 1.212
2023: 1.042
2024: 840
2025: 1.007
Aumento nas mortes violentas 2025 em relação a 2024
Rio Grande do Norte (19,6%)
Rondônia (7,5%)
Acre (6,3%)
Roraima (5,8%)
Distrito Federal (5,8%)
Mato Grosso do Sul (4,9%)
Rio de Janeiro (2,1%)
Fonte: 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública.
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