
O resultado do primeiro turno no Rio Grande do Norte exige uma discussão sobre as pesquisas eleitorais que vá além de dois extremos: tratar os levantamentos como previsões infalíveis ou descartá-los quando as urnas apresentam números diferentes. Houve uma distância relevante entre as intenções de voto medidas e a votação efetiva. Reconhecê-la é necessário. Explicá-la, porém, exige investigar algumas variáveis.
Na última Exatus (RN-08811/2026), realizada em 1º e 2 de outubro, Allyson Bezerra aparecia com 43,26%, Cadu de Lula com 24,06% e Álvaro Dias com 22%. Nas urnas, terminaram com 36,94%, 36,16% e 26,71% dos votos válidos, respectivamente. A pesquisa indicava disputa pela segunda vaga entre Cadu e Álvaro. A eleição revelou uma diferença de apenas 15.509 votos entre Allyson e Cadu, separados por 0,78 ponto percentual.
Há uma ressalva indispensável: percentuais de intenção de voto sobre o conjunto dos entrevistados não são diretamente comparáveis aos votos válidos, que excluem brancos e nulos. Essa distinção interfere na dimensão das diferenças. Não resolve, contudo, a questão central: o levantamento apresentava uma distância ampla entre os dois primeiros colocados, enquanto a apuração terminou com ambos muito próximos. É esse descompasso que precisa ser compreendido.
A série da Exatus, ao mesmo tempo, registrou uma tendência confirmada pela eleição: o crescimento de Cadu. Em abril, ele tinha 10,74%; em maio, 14,09%; em julho, 14,67%. Em setembro, avançou de 17,59% para 21,07% e depois 22,52%, chegando aos 24,06% da rodada final. O movimento ascendente estava identificado. O que os números não dimensionaram foi a força que essa trajetória alcançaria nas urnas.
Essa diferença entre captar a direção e medir a intensidade ajuda a organizar o debate. Uma pesquisa pode identificar corretamente um movimento e ainda apresentar limitações relevantes na estimativa de seu tamanho. A confirmação do crescimento de Cadu não apaga a distância entre o cenário medido e o resultado. Da mesma forma, essa distância não torna inútil toda a informação produzida ao longo da campanha.
Uma primeira hipótese é a decisão tardia. Ouvido pelo jornal O Estado de S. Paulo, o estatístico Raphael Nishimura, da Universidade de Michigan, lembra que levantamentos divulgados na véspera começam antes e não alcançam necessariamente as escolhas feitas nas últimas horas. No RN, é possível que parte dos eleitores tenha consolidado o voto em Cadu depois das entrevistas.
O voto útil também merece investigação. Beto Vasques, coordenador do Laboratório de Opinião Pública e Mídias Digitais da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, descreve a migração tardia para o candidato considerado mais competitivo. Aplicado à realidade potiguar, o raciocínio permite perguntar se a percepção de crescimento de Cadu estimulou eleitores que antes pretendiam votar em Allyson ou Álvaro a concentrar no petista o voto para governador.
Outro elemento é a associação com Lula. O presidente recebeu 59,75% dos votos válidos no Estado, percentual superior aos 36,16% de Cadu. Havia, portanto, um eleitorado presidencial petista maior que a votação do candidato ao governo. A campanha fortaleceu essa vinculação na reta final.
Também é necessário examinar quem chegou às amostras. Andrei Roman, da AtlasIntel, levantou, no plano nacional, a possibilidade de sub-representação de eleitores que mudaram de preferência. Essa é uma questão sobre recrutamento, distribuição territorial e ponderação, que somente uma avaliação metodológica pode esclarecer.
O comparecimento acrescenta outra camada. Pesquisas medem intenções entre entrevistados; eleições contabilizam escolhas de quem efetivamente votou. Se grupos com preferências distintas comparecem em proporções diferentes, o resultado pode se afastar do retrato inicial. A experiência de modelos que estimam a probabilidade de participação, mencionada pelos pesquisadores, abre um debate útil. Sua aplicação, porém, precisa de critérios transparentes e validação.
A margem de erro tampouco deve ser apresentada como explicação universal. Ela expressa uma parcela da incerteza estatística e não absorve automaticamente problemas de cobertura, recusas, ponderação ou mudanças posteriores nas preferências. Cobrar precisão exige conhecer essas limitações; reconhecer limitações exige prestar contas sobre elas.
As pesquisas erraram no RN? A resposta responsável admite que houve uma discrepância importante e que a série também captou um movimento real. O caminho é tornar públicas as escolhas metodológicas, investigar as diferenças e aperfeiçoar os levantamentos. Para institutos, imprensa e leitores, a lição é interpretar pesquisas como evidências sujeitas a incerteza, sem lhes atribuir a autoridade de antecipar o veredicto das urnas.
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