Maria Nunes, 75 anos, é o retrato dos moradores de Poço Branco, a 61
quilômetros de Natal, que estão com medo de dormir sob o teto de casa.
O abalo sísmico registrado por volta das 12h50 de ontem (11), foi o
segundo na região em menos de 48 horas, e deixou a população assustada.
O medo de que outro tremor ocorra movimentou rodas de conversa da
pacata cidade, que desde 1986 não presenciava um abalo sísmico de mesmo
porte.
Emanuel Amaral
Na
tentativa de sair logo de casa, Valdete Cacheado ficou com o joelho
ferido e o filho de nove meses bateu com a cabeça na porta
“Só
faltei morrer de medo, fiquei com as pernas bambas. Foi mais forte do
que o de sábado (09)”, relata dona Maria, que no momento do terremoto,
dobrava as roupas no quarto. Na parede entre a cozinha e um dos quartos
de sua casa, a rachadura tinha aproximadamente dez centímetros de
espessura. Um reboco temporário foi feito na sua casa para evitar o
desmoronamento da parede.
As rachaduras podem ser vistas por
residências e comércio de toda a cidade. O comerciante Raimundo Nonato
também foi prejudicado com o tremor. Os estragos deixados na estrutura
da casa estão parede do banheiro, que rachou do chão até o teto,
deixando o morador inseguro. No mercado dele, que fica ao lado da
residência, pacotes de biscoito chegaram a cair da prateleira.
“Estou
com vontade de armar uma barraca lá fora para dormir à noite com minha
família”, declarou. Já a dona de casa Maria Aparecida mostra os cacos
de vidro do porta-retrato com a foto dos filhos, que durante o tremor,
caiu da parede. Na cozinha, uma grande rachadura na parede mostra um
perigo iminente, pelos os armários recém-adquiridos e instalados na
mesma parede.
A colega, Maria Imperial, se preparava para
almoçar quando o tremor começou. “Saí correndo para a rua, chupando uma
manga, perdi até a fome. Tem muita gente com medo de entrar em casa”,
disse. A rua foi o refúgio de muitos moradores, que saíram de casa com
medo de desabamentos. Os moradores remeteram o tremor de ontem aos
terremotos ocorridos na região na década de 1980. “De 1986 para cá,
esse foi o mais forte”, disse Maria Imperial.
Na correria para
pegar o filho de nove meses que estava só na rede, Valdete Cacheado
tropeçou e caiu no chão. “Estou com o joelho todo dolorido e ele, que
estava no meu colo, acabou batendo com a cabeça na porta”, relata ela
que correu para a vizinha, Lúcia Gomes. “Fiquei com tanto medo que
vários minutos depois ainda estava me arrepiando e tendo calafrios.
Mudei de cor”, comentou Lúcia, ainda assustada.
As férias da
doméstica Maria de Lourdes foram abaladas pelo tremor. Ela conta que no
momento do estrondo, estava deitada na varanda de casa. As telhas da
residência afastaram-se com o movimento, deixando verdadeiros buracos
no teto. Algumas telhas ficaram prestes a cair. “Pensei que havia caído
algo na cozinha e levantei assustada, foi horrível”.
JerusalémApontado
inicialmente como epicentro do terremoto de ontem, o assentamento de
Jerusalém, no município de Taipu, pouco teve consequências com o abalo
sísmico. Dois ou três relatos dão conta de rachaduras nas casas. Uma
delas ocorreu na residência de Maria Ivoneide Silva, que é comerciante.
“Hoje foi forte e demorado, enquanto o de sábado foi rápido e leve”,
relatou ela aos pesquisadores do Departamento de Geofísica da UFRN, que
visitaram a cidade no final da tarde de ontem.
Eles buscavam
dados que precisassem o local dos tremores, e em virtude das poucas
evidências no assentamento, percorreram a região com a hipótese do
abalo ter sido gerado em outro local próximo.
NatalHá
relatos de tremores sentidos nas quatro regiões de Natal. Segundo
Etevaldo Veras, que mora nas Rocas, zona leste da capital, os vizinhos
correram para a rua quando começou o terremoto. “Eu estava dormindo e
acordei com o barulho do chão tremendo, como se fosse um carro
balançando”, descreveu. A moradora Adriana Araújo ficou preocupada.
“Senti meu sofá se mexendo e meu sobrinho, que mora na Praia do Meio,
ligou e disse que a TV saiu do rack, quase caiu no chão”, comentou.
fonte:TN