O abastecimento de água vem sendo afetado pela eutrofização, processo
em que a ocupação das áreas de mananciais gera resíduos líquidos e
sólidos que são fontes de nutrientes para cianobactérias produtoras de
toxinas que iniviabilizam o uso para consumo humano. Para enfrentar esse
problema, pesquisa da Escola de Engenharia de São Carlos (EESC) da USP
desenvolveu e avaliou um sistema de tratamento baseado nas técnicas de
dupla filtração, oxidação e adsorção. O método testado pelo engenheiro e
professor Marco Antonio Calazans Duarte conseguiu maior eficiência na
remoção de toxinas adequando a qualidade da água às exigências do
Ministério da Saúde.
“A ideia foi criar um processo com tecnologias simples e
robusto, a custo acessível, pois o uso de uma única técnica não consegue
remover as cianobactérias e suas toxinas (cianotoxinas) em sua
totalidade”, diz o engenheiro. Antes da dupla filtração é realizada uma
pré-oxidação, em que é adicionado um oxidante (na pesquisa utilizou-se
cloro, mas também podem ser adotados o dióxido de cloro, ozônio e
permanganato de potássio) que reage com a matéria orgânica e toxinas
presentes na água.
Em seguida, acontece o processo de coagulação, que visa neutralizar
as cargas elétricas das partículas sólidas existentes, para facilitar a
atração entre elas. “Depois da pré-oxidação e da coagulação, a água
passa por um filtro de pedregulho, em fluxo ascendente, para a remoção
de resíduos sólidos grosseiros, e por outro filtro, de areia, em fluxo
descendente, sendo então encaminhada para a oxidação intermediária ou
adsorção em carvão ativado”, conta o professor. A pesquisa teve a
orientação dos professores Luiz Di Bernardo e Ruth de Gouvêa Duarte, da
EESC.
Na etapa de adsorção, a água passa por um filtro de carvão ativado,
feito com casca (endocarpo) de côco, e atrai as toxinas que não
conseguem ser removidas pelos métodos convencionais de tratamento. “Por
uma questão de facilidade operacional, é recomendado o uso do carvão
ativado granulado, com grãos de tamanho entre 0,5 e 1 milímetro”, aponta
Calazans Duarte. “No entanto, cabe lembrar que o com carvão ativado
pulverizado, com grãos menores, também foram observados excelentes
resultados”.
Toxinas
De acordo com o professor, o problema da eutrofização da água
atinge todo o Brasil, motivado por causas relacionadas com as atividades
antrópicas, como urbanização, agropecuária, descarte de resíduos
sólidos (lixo urbano) e desmatamento, entre outras. “Esses fatores
favorecem o desenvolvimento de cianobactérias, que são microalgas com
grande capacidade de sobrevivência”, diz o engenheiro. “Apesar de
produzirem oxigênio, o que beneficia o ecossistema aquático, para se
proteger de predadores herbívoros elas lançam nas águas as cianotoxinas,
substâncias que provocam problemas de saúde em seres humanos e
animais”.
Os
processos avaliados na pesquisa conseguiram atingir os níveis de
qualidade da água para consumo humano exigidos pelo Ministério da Saúde
na Portaria 2914/2011. “Antes do tratamento, a água bruta estava
totalmente inadequada, devido a presença das toxinas e outros resíduos”,
afirma Calazans Duarte.
O sistema pode ser implantado nas estações de tratamento de água por
intermédio de pequenas reformas. “Muitas instalações estão em
funcionamento há mais de 20 ou 30 anos sem passar por mudanças e, mesmo
com a maior degradação dos mananciais causadas pela ocupação humana, a
dupla filtração pode ser implantada com custos inferiores aos processos
convencionais”.
Para testar o método, uma estação de tratamento de água em escala
reduzida foi montada no Açude Gargalheiras, represa localizada na cidade
de Acari, sertão do Rio Grande do Norte. Construída em 2007 e 2008, a
estação operou com vazões entre entre 175 e 1050 litros de água por hora
até 2009. “Esse experimento permite extrapolar os dados para estimar os
resultados de um projeto em escala real”, ressalta o engenheiro. “A
iniciativa deverá ser utilizada na melhoria de estações de tratamento no
Rio Grande do Norte e em outros Estados, cujos mananciais tenham
características semelhantes às que foram verificadas no estudo”. Após a
pesquisa, a estação foi transferida para a cidade de Extremoz, próxima a
Natal, capital do Rio Grande do Norte, para estudos da utilização do
sistema nos mananciais da região.
Imagens: cedidas pelo pesquisador
Mais informações: (84) 3232-4112; e-mail marcoacd@gmail.com , com Marco Antonio Calazans Duarte
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