Gorette Brandão
Em sessão solene
realizada pelo Congresso Nacional nesta segunda-feira (16), para marcar
os 25 anos da morte de Chico Mendes, senadores e deputados reverenciaram
sua memória e legado. Os pronunciamentos destacaram a sensibilidade e
visão de futuro do líder ambientalista ao defender caminhos alternativos
para o desenvolvimento da Amazônia, baseado na sustentabilidade, com a
preservação da floresta e também a inclusão das comunidades
tradicionais, como os seringueiros, as comunidades indígenas, ribeiros e
quilombolas.
Depois de afirmar que o seringalista é nome obrigatório na lista do
cem brasileiros mais importantes do século que passou, o 1º
vice-presidente do Senado, Jorge Viana (PT-SP), salientou que Chico
Mendes não lutou por questões meramente econômicas. Ele afirmou que o
líder seringalista compreendeu claramente que o projeto de colonização
da Amazônia dos antigos governos e elites, para transformar a região
numa “efervescente economia, onde o dinheiro jorraria”, estava destinado
ao fracasso.
- Vocês acham que é fácil se contrapor e colocar um caminho
alternativo? Mas o Chico fez isso, vinculando-se a conceitos que estão
atuais hoje, no outro século – disse o senador.
Ainda de acordo com Jorge Viana, o Brasil não terá verdadeiramente
compreendido Chico Mendes enquanto a floresta não for enxergada como um
ativo econômico e uma vantagem comparativa para o país. Mesmo apontando
avanços no campo das ações sustentáveis a partir do governo Lula, ele
disse que o Brasil precisa fazer mais para corresponder ao papel de
“detentor e cuidador” da maior floresta tropical do mundo e apelou para o
compromisso de cada brasileiro.
- Nenhum de nós precisa esperar um único dia no esforço de levar adiante os ideais de Chico Mendes – conclamou.
Como Jorge Viana, a sessão contou com a participação de parlamentares
que conviveram com Chico Mendes, caso do senador Aníbal Diniz (PT-AC) e
do deputado federal Siba Machado, também do PT do Acre, os dois últimos
autores da sugestão da sessão do Congresso. Participaram ainda a
deputada Janete Capiberibe (PSB-AP), o ex-governador do Acre Binho
Marques e Ângela Mendes, filha de Chico Mendes, que representou a
família.
Patrono
Ao abrir a sessão, Jorge Viana fez a leitura da lei sancionada pela
presidente Dilma Rousseff e publicada no dia, de iniciativa de Janete
Capiberibe, que concede a Chico Mendes o título de Patrono Nacional do
Ambientalismo. Ele, que já tem seu nome entre os Heróis Brasileiros, foi
ainda homenageado com o lançamento, no mesmo dia, da segunda edição do
livro Vozes da Floresta. Publicado pelo Senado, o livro conta com
depoimentos de pessoas viveram, conheceram ou têm opinião a respeito da
luta de Chico Mendes.
Como afirmou Aníbal Diniz, Chico Mendes foi assassinado “no auge das
suas melhores ideias e de sua disposição” de contribuir para a Amazônia e
o Brasil. Engajado, politizado e articulado, ainda conforme o senador, o
líder seringalista “viveu a resistência contra a exploração desenfreada
e o desmatamento” da Floresta Amazônica. Aníbal Diniz recordou ainda
que líder seringueiro, o fundador do PT no estado, foi responsável pela
suspensão dos financiamentos internacionais a projetos que devastavam a
Amazônia e expulsavam seringueiros das terras onde viviam.
- Os que pensavam em acabar ou enfraquecer a sua causa, acabando com a
sua vida, terminaram produzindo um efeito exatamente contrário, porque
Chico Mendes morreu, o seu corpo físico foi eliminado, mas os seus
ideais foram fortalecidos e estão cada vez mais produzindo os melhores
frutos – afirmou Aníbal.
Janete Capiberibe, logo após destacar o sentimento de irmandade que
existe entre o Acre e o Amapá, observou que a causa da morte do
seringalista e a permanência das agressões à floresta e seus povos
tradicionais é o “desenvolvimento equivocado, predatório, causador de
desigualdade social e exclusão”. Siba Machado, que também já exerceu
mandato no Senado, destacou avanços ocorridos no Acre, dando como
exemplo uma indústria de preservativos que tem o látex como
matéria-prima e o aproveitamento florestal, segundo ele soluções
sustentáveis que traduzem a visão de Chico Mendes.
‘Poronga’
Ângela Mendes disse a voz de seu pai foi a "poronga" – nome da luz
que o seringueiro leva sobre a cabeça para iluminar seus caminhos nos
seringais - que iluminou e direcionou os rumos políticos do Acre e
tornou real “sonhos longínquos” de vida digna para os povos da floresta,
inclusive o direito de permanecerem no seu lugar. Apontou conquistas no
Acre, onde 47% do território são reservas extrativistas, mas observou
que ainda há muito que fazer em favor das populações tradicionais em
outras regiões, inclusive para que não sejam “surrupiados” direitos já
conquistados “à custa de vidas”. Destacou que os interesses contrários
são fortes e bem articulados também no Congresso.
- Meu pai nunca gostou de títulos. Por isso, eu ouso dizer, sem medo
de errar, que o título de herói nacional e patrono do meio ambiente
brasileiro só terá valor, de fato, quando não houver mais nenhuma morte
por conflito de terra, quando não houver mais injustiças e ameaças
contra aqueles que, de fato, defendem o meio ambiente - afirmou.
De acordo com o ex-governador Binho Marques, que atuou ao lado de
Chico Mendes em projetos de educação nos seringais desde muito cedo,
Chico Mendes era, ao mesmo tempo, um “moleque sapeca” e uma pessoa de
pensamento complexo e refinado, capaz de enxergar todos os aspectos de
uma questão. Também destacou sua capacidade de aglutinar pessoas, unindo
em momentos difíceis grupos com divergências de pensamento, como
“ambientalistas puros, comunistas e socialistas”.
Agência Senado
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